DESPORTO

Formação desportiva, vendedores de sonhos, ou crimes graves? – de tudo um pouco…

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No último mês, o país foi alertado para uma grave situação que envolve a Academia BSports, com sede em Riba d’Ave e liderado por Mário Costa, então presidente da Assembleia Geral da Liga de Clubes profissionais de Futebol.
O caso conta-se em breves palavras: a Academia tem fins lucrativos, recruta jovens talentos em países da América do Sul com expectativas de lhes proporcionar carreiras desportivas de alto nível na Europa, envolvendo quer a formação, quer a colocação em clubes europeus de alto nível – e isto, tendo como contrapartida o pagamento de mensalidades entre 600 e 2000 euros. Os factos, na realidade, não corresponderiam a estas expectativas contratuais, com carências a nível da formação escolar e desportiva, a nível do encaminhamento para clubes e, mais grave, a nível das necessidades básicas (alimentação, higiene, condições de vida e limitações da liberdade).
A acusação do Ministério Público é grave, com suspeitas de trafico de seres humanos (ainda por cima menores), com retenção de passaportes e incumprimentos contratuais, com situações de maus-tratos e, segundo o SEF, todos eles estariam no país em situação irregular.
Estes factos, independentemente se serem suspeitas ainda não provadas, devem suscitar alguma reflexão:
A primeira é que este caso não é isolado, mas sim um entre 30 que o SEF tem em investigação, envolvendo clubes de Futebol e associações desportivas, ligados à exploração de jogadores que se deslocam para Portugal com expectativas concretizarem o sonho de jogar Futebol na Europa. E Portugal é o ideal, o país do Ronaldo e dos bons treinadores: as expectativas redobram e abrem caminho a autênticas redes organizadas (o SEF, nos últimos anos e neste âmbito, constituiu 103 arguidos, entre dirigentes, atletas, treinadores e empresários de Futebol), sendo que este caso é, apenas, a ponta de um iceberg de exploração de jovens estrangeiros, candidatos a futebolistas profissionais.
Mas o problema não se fica por aqui, porque também a nível interno, apenas com jovens portugueses, a questão suscita preocupação. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) tem atualmente 225 mil atletas inscritos (cerca de 30% do total de 750 mil, de todas as Federações desportivas) e destes, a grande maioria (cerca de 90%) tem entre 6 e 18 anos.
Coloca-se a questão: o que os motiva? Porque é que há tantos candidatos a futebolistas?
Bem sabemos que haverá mérito dos clubes, das associações distritais de Futebol e da própria FPF (ver estudo de Andreia Pereira “O processo formativo das Associações de Futebol, em Portugal”, apresentado na Universidade do Porto), mas a motivação geral é comum: ser candidato a futebolista profissional, ter uma carreira no Futebol, ser uma futura estrela da modalidade.
Mas contas são fáceis de fazer: há em Portugal 36 clubes profissionais de Futebol (18 na primeira liga e outros tantos na segunda liga) e se cada um tiver 25 atletas, dará um mercado total de 900 profissionais, dos quais seguramente metade serão estrangeiros; ou seja, o mercado português absorve 450 atletas profissionais portugueses, havendo uma base de 225 mil jovens, candidatos a futebolistas. É praticamente impossível estes jovens concretizarem o seu sonho e isto deve ser dito muito claramente.
Aqui chegados, voltamos ao título do artigo: no Futebol, no atual quadro, todos são vendedores de sonhos (praticamente irrealizáveis), aos jovens atletas e às suas famílias. A grande diferença está na ganância do lucro, que pode levar ao cometimento de crimes. Vamos aguardar…

Paulo Branco

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