Empreitada concluída há alguns meses permitiu reorganizar espaços. Provedor defende acordos específicos para pessoas com demência
A Santa Casa da Misericórdia de Vagos inaugurou, a 7 de outubro, as obras de requalificação realizadas no âmbito do programa PARES 3.0, resultado de um investimento de 1,35 milhões de euros. A cerimónia, que foi antecedida de uma homenagem aos Irmãos beneméritos da instituição e da comemoração dos 50 anos do Infantário da Santa Casa, ficou também marcada pelos apelos ao reforço das respostas sociais para a população idosa.
A obra inaugurada foi projetada pela arquiteta Alice Costa e permitiu transformar uma zona antiga das instalações em serviços administrativos, libertando espaço na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI). Além disso, foi criada uma zona de apoio à cozinha, com melhorias no circuito alimentar, e construídas duas câmaras de conservação de alimentos: uma de congelação e outra de frio. Paulo Gravato, provedor da Santa Casa de Vagos, reconheceu tratar-se de “uma obra cara”, justificando o investimento com as necessidades da instituição.
Na sua intervenção, Paulo Gravato aproveitou a ocasião para chamar a atenção para o aumento das demências e de outras doenças neurodegenerativas, defendendo a criação de respostas adaptadas às necessidades desses utentes. “O envelhecimento demográfico trouxe consigo um desafio imenso e complexo, que já não podemos ignorar”, afirmou, alertando para uma realidade que considera ser cada vez mais evidente no concelho de Vagos.
O provedor defendeu que as respostas tradicionais para a população idosa já não são suficientes para acompanhar pessoas com Alzheimer ou com outras demências, sobretudo quando as mesmas exigem cuidados especializados e acompanhamento permanente. “Precisamos, por isso, de uma reforma corajosa. Apelamos à criação de acordos de cooperação específicos para as demências. É urgente que a Segurança Social reconheça esta tipologia de utente, com financiamento majorado que nos permita contratar psicólogos, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala e assegurar a formação especializada contínua para os nossos cuidadores”, apelou Paulo Gravato.
O responsável da Santa Casa recordou, ainda, que, no momento em que se prepara para deixar a liderança da instituição, continuam por concretizar vários projetos, devido à falta de verbas. Falava, nomeadamente, de um centro de apoio a pessoas com demência, do alargamento da ERPI com mais 25 camas e de uma unidade de cuidados continuados, que ficou suspensa em 2012.
“Viver com qualidade”
Já Óscar Gaspar, presidente da Assembleia Geral da Santa Casa de Vagos, tinha alertado para o problema da falta de respostas no envelhecimento aquando da sua intervenção: “Viver mais é uma conquista, mas a verdadeira conquista é conseguirmos viver mais anos com qualidade, com autonomia e com dignidade”. E também Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, frisou a necessidade de se adaptar os serviços ao envelhecimento da população e ao aumento das situações de dependência. “É preciso conversar com o Estado para perceber que a sociedade à nossa volta está a mudar muito rapidamente. Nem sempre as repetições dos velhos métodos de respostas funcionam”, advertiu.
Rui Cruz, presidente da Câmara, também presente na cerimónia, destacou a importância da cooperação entre autarquias e instituições sociais, recordando o papel do município na criação e desenvolvimento da rede de equipamentos do concelho. “Sempre que, na sociedade civil, alguém faz melhor do que a Câmara Municipal, a autarquia deve ser parceira e deve apoiar”, afirmou o autarca.
Após ser inaugurado um memorial de homenagem aos Irmãos beneméritos, no jardim da Santa Casa, a cerimónia foi também um momento de prestar tributo àqueles que contribuíram para o crescimento da instituição. E Óscar Gaspar destacou a importância da generosidade de quem contribuiu para a obra social da Misericórdia. “Esta cerimónia também existe hoje, precisamente para dizer uma palavra muito simples, mas que nunca deve deixar de ser dita: obrigado”, afirmou, sublinhando que os contributos individuais se transformam em respostas e apoios para toda a comunidade.
O presidente da Assembleia Geral deixou ainda uma palavra de reconhecimento a Paulo Gravato, cujo mandato à frente da instituição se aproxima do fim, destacando a sua dedicação e o trabalho desenvolvido ao longo dos anos. “Muito obrigado pelo humanismo, pelo sentido de responsabilidade e, sobretudo, obrigado pelo serviço prestado à Misericórdia e à comunidade de Vagos”, agradeceu.
Aniversário
Num dia marcado por diversos momentos simbólicos, foi também ocasião de assinalar os 50 anos da primeira resposta social da Misericórdia de Vagos. Criado em outubro de 1976, o infantário – valência iniciada por duas irmãs, Lucília Rocha Dionísio e Arcelina Rocha (já falecida) – foi o início de um percurso que levou a instituição a alargar a sua intervenção a diferentes fases da vida, da infância ao envelhecimento. As primeiras crianças que frequentaram o espaço, agora adultos, estiveram presentes na homenagem, assim como Lucília Rocha Dionísio, que se mostrou emocionada.
S.F.
