DESPORTO

O Cérebro também treina quando o corpo se move

Desporto

O Papel da Atividade Física no Desenvolvimento Cerebral, Cognitivo e Motor Durante a Infância
No dia 26 de setembro, tive a oportunidade de participar enquanto oradora convidada, no NeuroVagos Summit 2026, uma iniciativa organizada pela Clínica Médica NeuroVagos, que decorreu no Centro de Educação e Recreio de Vagos. O congresso reuniu profissionais de diferentes áreas do conhecimento, promovendo uma reflexão multidisciplinar sobre o neurodesenvolvimento e a saúde infantil.
A minha participação integrou a mesa-redonda “Cérebro em Movimento: Neurociência do Desenvolvimento Motor”, na qual procurei contribuir, a partir da perspetiva das Ciências do Desporto e da evidência científica disponível, para a compreensão do papel da atividade física e do exercício no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor das crianças. Desta reflexão emergem quatro questões fundamentais que importa transportar para o quotidiano das famílias, dos educadores e dos profissionais que acompanham o desenvolvimento infantil.

  1. Como é que o exercício pode influenciar a atenção e a memória das crianças?
    Quando uma criança corre ou joga, o cérebro também trabalha. O exercício pode modular a circulação cerebral, sistemas neuroquimicos ligados à atenção e fatores associados à plasticidade neuronal, como o BDNF. Num jogo de futebol, a criança observa colegas, recorda regras, antecipa movimentos e decide. Estas tarefas mobilizam atenção, memória de trabalho e controlo cognitivo. A investigação aponta para possíveis benefícios do exercício na cognição, embora os resultados variem com as atividades e as características das crianças. O movimento pode, assim, fazer parte da aprendizagem.
  2. Existe diferença entre atividade física livre e treino estruturado?
    Na brincadeira livre, a criança explora, inventa regras e descobre soluções; numa atividade orientada, o professor ou treinador pode definir objetivos, ajustar dificuldades e oferecer feedback. São experiências complementares, não alternativas incompatíveis.
    Num jogo da apanhada, por exemplo, correr e mudar de direção mobiliza competências motoras; antecipar trajetórias exige decisões; negociar regras promove interação social. Importa proporcionar experiências diversificadas, adequadas ao desenvolvimento de cada criança.
  3. Como podemos desafiar o cérebro enquanto nos movimentamos?
    Podemos acrescentar exigências cognitivas a tarefas simples: correr para a cor indicada solicita atenção; parar perante um sinal exige controlo inibitório; alterar a regra do jogo mobiliza flexibilidade cognitiva. Recordar sequências envolve memória de trabalho. Estas funções executivas podem ser solicitadas durante o movimento, mas isso não garante, por si só, melhorias duradouras: os benefícios adicionais continuam a ser investigados. O desafio deve ser ajustado à idade e às capacidades, sem comprometer a participação.
  4. Hoje muitas crianças passam grande parte do dia sentadas. Que consequências pode isso ter no desenvolvimento?
    Inatividade física e comportamento sedentário não são sinónimos. Uma criança pode praticar exercício e passar muitas horas sentada. A Organização Mundial da Saúde recomenda, entre os 5 e os 17 anos, uma média de pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana. Contudo, importa considerar as 24 horas: movimento, tempo sedentário e sono. Ler ou desenhar sentado não equivale, em termos cognitivos e sociais, a passar horas perante ecrãs recreativos. O excesso destes últimos associa-se a indicadores menos favoráveis de saúde e bem-estar, sem implicar causalidade automática. Importa interromper períodos sedentários prolongados e preservar tempo para brincar, interagir e dormir.
    O NeuroVagos Summit reforçou uma mensagem: o movimento não desenvolve apenas capacidades físicas. Pode criar oportunidades para aprender, decidir, explorar e conviver.
    Filipa Pereira
    Doutoranda em Ciências do Desporto | Universidade de Coimbra

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