OPINIÃO

Fiz o meu primeiro ultra-trail. E não estou feliz por isso

Opinião
“Ó, meu amigo! Claro que não estás feliz! Eu, se corro 10 metros, do sofá até à cozinha, já fico a arfar e a desejar não me ter levantado. E tu corres 50 quilómetros e queres estar feliz? Aposto que terminaste de gatas, com cãibras no corpo todo, três entorses, 20 unhas a cair e a jurar para nunca mais!”
Perdoe-me, caro leitor, o jeito de brincadeira com que iniciei o texto. Acredito que esse possa ter sido o pensamento de alguns ao ler o título desta crónica. E deixem-me dizer-vos que… têm toda a razão. Quer dizer, não terminei de gatas nem com cãibras no corpo todo. Felizmente também não torci nenhum pé ou joelho e também não me caíram unhas nenhumas. E dificilmente juraria para nunca mais depois de terminar um objetivo destes. Sim, essa é a verdadeira questão. Mais do que uma corrida ou que um desafio… era um objetivo. E está feito. Mas não estou feliz por isso.
Comecemos pelo início. Em 2025 atirei-me de cabeça ao meu primeiro trail. E quem conhece este mundo das corridas sabe muito bem que um trail pode ser bastante diferente das corridas em estrada. Bastante? Imensamente! Consideravelmente! Sobremaneira! Extremamente! Desmesuradamente! (Já estou a exagerar, não estou? Mas já vai perceber porquê) Atirei-me de cabeça sem saber bem ao que ia achando que 19 quilómetros seriam relativamente simples de percorrer. Mas não foram. Nada fáceis. Quase desisti. E como quase desisti… inscrevi-me na edição de 2026 nos… 31 quilómetros.
Agora, tudo seria diferente. Queria respeitar a Serra e, ao mesmo tempo, respeitar o meu corpo. Comecei a treinar em janeiro para correr no final de junho. Comprei todo o material necessário. Investi numas sapatilhas próprias para trail. Fui treinando pernas. E, mesmo assim, nem tudo foram favas contadas. Sei, com toda a convicção, que foi a Vitamina Família que me deu alento a meio da prova.
Queria mais. Estava pronto, mentalmente, para mais. E eis que chegamos ao nosso ultra-trail. Embebecido pelo desafio físico e mental destas loucuras, inscrevi-me nos 50 quilómetros da Serra d’Arga. Fui com medo. Mas fui. Fui nervoso. Mas fui. E tentei aproveitar ao máximo cada passo dado, cada metro percorrido: as vistas da Serra d’Arga, a zona de Nossa Senhora do Minho, o Mosteiro de São João de Arga, as conversas com quem procura ultrapassar as mesmas provações, o apoio de muitos habitantes que naquele dia tiram parte do seu tempo para nos apoiar. E terminei, já de noite. Cruzei a meta, sozinho. Levei com uma medalha ao pescoço, emocionado pelo que tinha acabado de conseguir. Mas não estou feliz por isso.
Completei algo que queria fazer há muito tempo. Mas não estou feliz por isso. Olhei em volta e não vi caras conhecidas. Não vi ninguém com quem partilhar a emoção do momento.
Atenção, eu corro por motivos puramente egoístas. Fazer treinos de trail é uma forma de fugir do mundo. Uma boa forma de, por momentos, me esquecer das responsabilidades. Do trabalho. Da família. De me reconectar com a natureza. E corri esta prova por mim, para provar a mim mesmo que conseguia, custasse o que custasse. Mas de que serviu tanta provação se no final não houve amparo e ninguém com quem partilhar a felicidade?
Fiz o meu primeiro ultra-trail. E não estou feliz por isso. Pergunto-me se é isto que sentem alguns que se dedicam tanto a uma causa ou a um desafio, que se dedicam tanto a algum projeto ou trabalho, distanciando-se de família e amigos numa busca incessante pelo sucesso. A minha prova durou apenas 12 horas, mas há quem tenha projetos que duram uma vida inteira, certo? Se, quando o sucesso chega, não estão lá os nossos para festejar connosco e para partilhar da nossa alegria… será que valeu a pena? Para mim não valeu. E não estou feliz, por isso.
Não queria terminar sem agradecer profundamente todo o apoio que recebi ao longo deste ano. Nada disto se faz sem disponibilidade física e mental de quem nos acompanha à distância, seja em casa ou até durante a prova. À minha esposa, Inês, por ficar com as nossas duas pequenas enquanto eu me aventuro pelo meio do mato. À Clara e à Camila por tentarem não desgastar tanto a mãe. E a toda a família que durante meses a fio se vai fazendo presente. Estas medalhas não são minhas. São nossas. E isso deixa-me feliz.


Nuno Margarido
Mestre em Comunicação

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