OPINIÃO

A Conta do Negacionismo

Opinião
Há uma frase que se ouve cada vez mais por pela Gafanha da Boa Hora quando o assunto é reciclagem e separação de resíduos:
“Eu já pago o lixo, por isso não tenho de separar nada.”
É uma teoria fascinante.
Pertence à mesma escola de pensamento que defende que, depois de pagar o seguro do carro, os travões passam a ser opcionais. Ou que, depois de pagar impostos, os sinais de trânsito são apenas sugestões decorativas. Ou ainda que, depois de comprar um extintor, já se pode atear um pequeno incêndio na garagem porque “já se pagou a prevenção”.
É a doutrina do:
“Já paguei. Agora desenrasquem-se.”
E é aqui que nasce a filosofia do contentor único.
Para os seus seguidores, o indiferenciado não é um contentor. É uma espécie de portal mágico onde tudo desaparece sem consequências.
Sobrou arroz? Para dentro.
Plástico? Para dentro.
Vidro? Para dentro.
Cartão? Para dentro.
Restos do jardim? Para dentro.
Uma cadeira velha? Para dentro.
Um colchão? Ao lado.
Um frigorífico? Atrás do contentor.
Uma sanita? Desde que ninguém veja.
Uns fazem caldeirada de enguias.
Outros fazem caldeirada de resíduos.
Tudo misturado e fé no destino.
O problema é que a realidade tem o péssimo hábito de não respeitar teorias de café.
O Município de Vagos disponibiliza uma vasta rede de ecopontos para papel, embalagens e vidro espalhados pelo concelho. Além disso, existe recolha gratuita de monos, como móveis, colchões e eletrodomésticos, bem como recolha de resíduos verdes mediante marcação.
Ou seja, quando alguém abandona um colchão junto a um contentor ou despeja um frigorífico numa vala, não é por falta de alternativas.
É por falta de vontade ou tem o algoritmo cívico bloqueado.
Entretanto surge sempre a figura incontornável da política do contra.
Todos as freguesias têm um especialista.
Se a boa prática é separar, ele mistura.
Se a recomendação é reciclar, ele ignora.
Se existe um ecoponto a vinte metros, escolhe o indiferenciado a cinquenta.
Se existe uma solução, escolhe o problema.
Parece seguir um algoritmo simples:
Fazer exatamente o contrário daquilo que faz sentido.
Depois aparecem as explicações científicas.
Um amigo de um primo de um cunhado viu um camião misturar resíduos há quinze anos.
Pronto.
Investigação encerrada.
Décadas de trabalho técnico anuladas.
Missão cumprida.
Para estes negacionistas ambientais, os ecopontos são decoração urbana, a reciclagem é uma encenação e milhares de trabalhadores do setor dos resíduos participam diariamente numa conspiração internacional para obrigar as pessoas a caminhar mais dez metros.
O problema é que os números não partilham destas fantasias.
O tratamento dos resíduos urbanos na região ronda os 75,30 euros por tonelada, aos quais acrescem 35 euros por tonelada da Taxa de Gestão de Resíduos, ultrapassando os 110 euros por tonelada antes de IVA.
E aqui entra uma verdade dolorosa.
Quando papel, vidro e embalagens recicláveis vão parar ao indiferenciado deixam de ser recursos valorizáveis e passam a ser mais um custo para recolher, transportar e tratar.
Traduzindo:
quanto maior a caldeirada, maior a conta.
É matemática.
E a matemática continua a funcionar mesmo quando alguém escreve no Facebook que “isto vai tudo para o mesmo sítio”.
Os aterros não funcionam com opiniões.
Os camiões não trabalham a comentários.
Os combustíveis não são pagos com indignação.
E os trabalhadores não recebem em teorias.
No final, a conta chega sempre.
Pagam os cidadãos.
Pagam as famílias.
Pagam as empresas.
Por isso, a questão já não é a falta de informação, nem a falta de ecopontos, nem a falta de alternativas. O Município disponibiliza meios para que os resíduos sejam corretamente separados e encaminhados.
A questão é saber se queremos agir com responsabilidade ou continuar a cultivar o confortável negacionismo do “não é problema meu”.
Porque há uma coisa que o lixo e o negacionismo têm em comum.
Ambos ocupam espaço.
Mas só um deles acredita que os problemas desaparecem quando se fecham os olhos.
E infelizmente ainda não inventaram um ecoponto para reciclar desculpas.
Joaquim Plácido

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