DESPORTO

Mundial: a festa que atravessa fronteiras

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Confesso que cheguei a este Mundial com dúvidas. Não sobre o futebol, que esse continua a ser um idioma universal, falado com sotaques diferentes, mas compreendido em qualquer canto do planeta. As dúvidas eram outras.
Num país onde a política de imigração tem ocupado manchetes, onde as operações do ICE geraram polémicas e onde o debate sobre fronteiras parece mais aceso do que nunca, como iria coexistir uma invasão pacífica de milhares de adeptos vindos dos quatro cantos do mundo? Como se conciliaria a lógica dos controlos apertados com a espontaneidade caótica que acompanha sempre uma competição desta dimensão?
A resposta tem sido dada nas ruas.
Dentro de campo, até agora, houve bons jogos, surpresas, golos memoráveis e algumas histórias improváveis. Mas, para já, o Mundial está a ser ganho fora das quatro linhas.
Nas praças, nos bares, nas fan zones e nas avenidas das cidades anfitriãs, multiplicam-se imagens que nenhum realizador conseguiria escrever sem parecer excessivamente otimista. Mexicanos e sul-coreanos a dançarem juntos pela noite dentro. Adeptos de países separados por milhares de quilómetros a partilharem mesas, canções e fotografias. Desconhecidos que, durante noventa minutos, discutem futebol com a intensidade de velhos amigos.
Entre as muitas histórias que o torneio já produziu, poucas ilustram melhor este espírito do que a passagem do Tartan Army por Boston, a claque organizada dos escoceses. Os homens e mulheres de kilts e espírito bonacheirão conseguiram uma proeza que parecia impossível: secaram literalmente todos os pubs locais, esgotando reservas de cerveja a um ritmo industrial. Mas deixaram uma marca ainda mais relevante fora do balcão. Organizaram recolhas de fundos e entregaram os donativos a um hospital pediátrico da cidade, demonstrando que a paixão pelo futebol pode perfeitamente coexistir com responsabilidade social.
Talvez seja essa a maior vitória deste Mundial. Num tempo em que os algoritmos vivem para nos convencer que tudo nos divide — política, religião, nacionalidade, cultura ou ideologia — o futebol continua a produzir momentos desconfortavelmente simples. Pessoas diferentes a descobrirem que têm mais em comum do que imaginavam.
O torneio ainda vai a meio. Haverá polémicas, erros de arbitragem, teorias da conspiração e discussões intermináveis nas redes sociais. Faz parte da tradição.
Mas, por agora, o Mundial está a lembrar-nos de uma verdade antiga: por vezes, a melhor diplomacia internacional não acontece em cimeiras. Acontece numa mesa de bar, entre dois adeptos que não falam a mesma língua, mas percebem perfeitamente o significado de um golo. E talvez seja essa a mais bela vitória deste torneio. A demonstração de que, por vezes, o futebol consegue fazer aquilo que a política, a diplomacia e as redes sociais passam anos a tentar sem sucesso: lembrar-nos de que, antes de sermos países, bandeiras ou passaportes, somos apenas pessoas à procura de uma boa história para contar quando regressarmos a casa.

Paulo Pereira

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