OPINIÃO

Tributo a um Amigo

Opinião

Nos idos de 1985, era ele o mesário substituto do Provedor da Misericórdia de Vagos. Estávamos em ano de eleições para os órgãos sociais que haviam de dirigir a Instituição no triénio 1986-1989. As dificuldades financeiras da Instituição, nos primeiros anos de atividade, eram bastantes e motivo de preocupação de dirigentes e trabalhadores. O rendimento médio das famílias do nosso concelho (que, na área da Infância, cobria na totalidade) era muito baixo, o que levava a que fossem cobradas comparticipações familiares igualmente reduzidas, por serem calculadas com base na respetiva capitação.
O Centro de Dia para a Terceira Idade, entretanto criado, não colheu a esperada adesão da população, que procurava uma resposta residencial, o que, tendo em conta os encargos, colocava um problema de sustentabilidade.
Parte dos terrenos estavam ocupados pelo edifício da “Casa do Povo” que, mesmo depois de finda a atividade desta organização, ali se manteve por vários anos sob a alçada da Junta de Freguesia que, aliás, alargou a área ocupada construindo um polidesportivo descoberto, sem que para tal tivesse obtido autorização.
A Santa Casa precisava de se consolidar e desenvolver.
Enfim, tornava-se necessário revigorar a gestão da Instituição e incrementar a sua atividade.
Era tempo para ambicionar e ousar. Impunha-se uma mudança.
Afigurava-se evidente que a solução estaria no seio da própria Mesa Administrativa. O então mesário substituo do provedor reunia as condições necessárias – o conhecimento da Casa, a necessária ambição, capacidade de liderança e visão.
Falo-vos, claro, de Paulo Gravato, a quem me ligava forte amizade e uma grande “cumplicidade”.
Eu era, então, secretário da Mesa da Assembleia Geral e, um dia em que juntos ouvimos uma manifestação de ansiedade do Pessoal veiculada por duas das principais responsáveis, lancei-lhe um desafio – Isto, tem que dar o “salto” e tu és a pessoa indicada para liderar a mudança. Tu é que vais ser o Provedor e contas comigo na futura Mesa Administrativa.
Ali ficou assente que a candidatura deveria ter um desígnio que criasse valor e ficou definida a reconversão do Centro de Dia em Lar de Idosos, que era aquilo que a população necessitava e procurava, proporcionando à Santa Casa um crescimento sustentável, com a captação de mais recursos.
Assim nasceu uma candidatura de alguém que é, ainda hoje (o mandato termina no final do ano) Provedor da Santa Misericórdia de Vagos e cuja Obra fala por si.
Iniciou o “consulado” com um Infantário (Creche e Jardim de Infância e ATL) com cento e poucas crianças e um Centro de Dia com uma única cliente. De então para cá, entre muitos sucessos e algumas contrariedades, o crescimento da Santa Casa, superou todas as expectativas de quem a viu “nascer” para a ação.
As instalações do Centro de Dia, sofreram obras de ampliação com a construção de um piso superior, dando lugar ao desejado Lar de Idosos (agora chamado Estrutura Residencial para Pessoas Idosas).
Nova ampliação / remodelação foi realizada, quando foi decidido avançar para a área da Saúde, com a criação do Centro de Medicina Física e de Reabilitação, que se instalou no rés-do-chão de uma nova construção de raiz, contigua ao Lar, que se expandiu no respetivo primeiro-andar proporcionando significativa melhoria de condições de alojamento aos residentes.
Sob a liderança de Paulo Gravato, a Santa Casa diversificou as Respostas Sociais, criou um Serviço de Apoio Domiciliário, instituiu o Acolhimento de Crianças e Jovens em Perigo, transitoriamente deteve um ATL anexo à Escola Primária de Sanchequias. Apoiou a Segurança Social no combate à pobreza e à exclusão e o Instituto de Emprego no acesso ao Mercado de Trabalho, com estágios profissionais, Empresa de Inserção e, mais tarde, o GIP- Gabinete de Inserção Profissional, prossegue como Coordenadora do POAPMC (Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas), participou e coordenou a Comissão Executiva local do RMG, depois RSI, tendo desenvolvido um projeto RLIS, seguido de um Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS), colaborou com o Estado no acolhimento de Refugiados, participou no Programa Escolhas e nas Cantinas Sociais.
O apoio à Infância foi melhorado e incrementado, com a construção de novo edifício para a Creche, aliás, na sequência da aprovação de três candidaturas distintas a fundos Comunitários, para a construção de outras tantas estruturas – além daquele edifício, o do Centro de Acolhimento Temporário, agora designado CAR (Centro de Acolhimento Residencial) para Crianças e Jovens, e outro, para acomodar, no andar inferior os serviços de Tratamento de Roupas e de Cozinha, constituindo o andar de cima, nova ampliação da resposta Residencial para Idosos.
No que respeita à Infância, neste período, houve várias alterações, o edifício primitivo, onde funciona o “Pré-Escolar”, foi alvo de importantes obras de requalificação e, além da citada construção da nova Creche, agora frequentada por uma centena de Crianças, foi criada uma outra Creche, na Zona Industrial de Vagos.
A intervenção na Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, iniciou-se com a criação de um Lar de Jovens (o Astrolábio), inicialmente instalado nas casas que detinha na rua da Senhora, oportunamente adaptadas para o efeito, posteriormente substituído pelo novo CAR, já acima citado.
Quanto à Saúde, ficou um “amargo de boca”, visto que, o Provedor e a sua equipa tudo fizeram para conseguir honrar o propósito fundador da Santa Casa, que era, como sabido, a construção de um hospital. Chegou a ver aprovado o projeto e o financiamento de uma Unidade de Cuidados Continuados; mas, uma reviravolta na política nacional, impediu a materialização desse desiderato. No entanto, também nesta área, houve concretizações importantes, um moderno e bem equipado Centro de Medicina Física e de Reabilitação e, o Projeto Memorizar destinado a apoiar os pacientes e respetivos cuidadores informais, no campo da saúde mental.
A Cultura também marca o tempo de expansão sob o comando deste Provedor. Editaram-se livros, fizeram-se exposições, seminários, foi acolhido um grupo de jovens dedicados ao Teatro, estabelecendo-se uma Mordomia – O FANTÁSTICO – G T da SCM. de Vagos, foi adquirido e “ressuscitado” o Jornal Eco de Vagos e muitas outras ações que aqui não caberiam.
Do enorme desenvolvimento da Misericórdia de Vagos (que, entretanto, conquistou a simpatia das populações e atraiu a generosidade de benfeitores) durante os mandatos deste Provedor, muito fica por dizer, por não caber neste espaço.
No entanto, acrescento ao menos, alguns organismos em que ele representou a Instituição e parcerias que integrou – Conselho Local de Ação Social, CLA do RSI, Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, Conselho Municipal de Educação, Comissão Municipal de Saúde, Grupo de Ação Costeira da Região de Aveiro.
Paulo Gravato, foi Presidente do Secretariado Regional de Aveiro da União das Misericórdias Portuguesas. Foi um dos doze Provedores condecorados por aquela União, na Sessão de encerramento do respetivo XI Congresso Nacional, realizado em maio de 2014, em Évora.
Em 2016, passou a integrar o Secretariado Nacional da UMP e, em representação desta, foi Presidente do Conselho Fiscal da CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social.
No último Congresso Nacional, que ocorreu em Braga de 4 a 7 deste mês de junho, a UMP atribuiu-lhe a “Medalha de Benemérito, pelos relevantes serviços prestados às Misericórdias Portuguesas”. Justa e bem merecida distinção, em reconhecimento da sua dedicação à Causa e do seu longo, gratuito e proficiente desempenho ao Serviço da sua e nossa Misericórdia e das Misericórdias no seu todo.
E vem mesmo a calhar. Este ano comemorou-se já o 35º aniversário da ERPI (o Lar de Idosos, o tal desígnio); em outubro, celebram-se as Bodas de Ouro do Centro Infantil (o Infantário) que foi, afinal, a primeira Resposta Social e o início da atividade (em 1976) desta Associação criada em 1959.
Os Irmãos, Trabalhadores e outros Colaboradores da Santa Casa da Misericórdia de Vagos têm todas as razões para se orgulharem de servir com este Provedor. Estou certo, estão gratos e orgulhosos.
Eu, que acompanhei todo este percurso do Provedor Paulo Gravato, primeiro como Mesário, depois como Diretor Delegado, naqueles que foram os melhores (mais vinte e dois) anos da minha vida profissional, não posso deixar de sentir, por isso, um enorme orgulho e satisfação.
A nossa convivência na Santa Casa não foi feita só de abraços e salamaleques, discutimos muito. Pois, como diz o ditado, “casa que não é ralhada, não é governada”. Mas, prevaleceu sempre o superior interesse da Instituição e a nossa Amizade. Foi, para mim um enorme privilégio.
Agora, dirijo-me diretamente a ti, Paulo (ou, Paulito, como antigamente te chamávamos todos): Obrigado, muito. Obrigado, por me teres permitido fazer contigo tanto desta enorme caminhada, meu Amigo e eterno Provedor.

Jorge Luís Oliveira

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