ECO DA SANTA CASA

A Pessoa com Demência no Verão

Já dizia a música…
“No verão os dias ficam maiores
No verão as roupas ficam menores
No verão o calor bate recordes
E os corpos libertam seus suores…”

Para muitas pessoas o verão significa férias, encontros com familiares que já não veem há algum tempo, dias mais longos e horários menos rígidos. Para uma pessoa com demência, a previsibilidade é uma âncora e as mudanças na rotina, muito calor, ajustes de comida, necessidade de hidratação mais frequente, ou troca de roupa, podem aumentar a confusão e a desorientação, ter implicações no sono, gerar ansiedade, agitação ou maior irritabilidade.
A demência afeta a capacidade de interpretar o ambiente. Quando o quotidiano muda seja por causa de uma viagem, da casa estar cheia, da mudança de horários, do calor… o cérebro pode ter dificuldade em adaptar-se.
Os dias longos e o calor noturno podem perturbar o ciclo sono-vigília. Muitas pessoas com demência já vivem alterações do ritmo circadiano e, no verão, isso pode intensificar-se. Consequências comuns: maior inquietação ao fim do dia, despertares noturnos, sonolência diurna, maior desgaste do cuidador (que também não descansa).
No fundo, basta uns dias seguidos de calor para o sono piorar e quem dorme mal pode viver um dia(s) mais difícil(eis). Algumas dicas que servem a toda a população como, no verão usar pijama (mais largo) e roupa de cama de algodão, manter cortinas e janelas fechadas durante a tarde e abertas ao fim do dia para arejar, podem fazer a diferença a uma pessoa com demência.
As mudanças de roupa podem ser um problema e tendo em conta que devemos efetuar ajustes por causa das temperaturas serem mais altas, devemos ter em atenção que o nosso familiar também quer andar confortável e mudar a “roupa habitual” é, por vezes, muito “desconcertante” e, por isso, sinónimo de resistência. Fazer os ajustes, ou seja, tirar as peças de inverno do alcance e deixar à mão as de verão, sem argumentar, às vezes resulta.
O calor extremo é então especialmente exigente para pessoas com demência. Muitas vezes não reconhecem que têm sede, esquecem-se de beber água, vestem a já falada roupa inadequada para a temperatura e sobretudo, podem não conseguir comunicar que se sentem mal ou de onde vem o desconforto.
Mandar beber água não resulta (as ordens quase nunca resultam!) porque a pessoa com demência pode não ter sede, não perceber que tem sede, nem a necessidade/urgência de se hidratar. Podem resultar águas com sabor sem açúcar, os batidos, a gelatina ou a melancia. Pode ajudar também deixar um copo sempre cheio e à vista.
Férias em família ou idas à praia podem parecer simples, mas um ambiente desconhecido aumenta o risco de desorientação. O risco da pessoa se perder ou ficar muito agitada cresce significativamente em locais movimentados ou pouco familiares. Além disso, o verão é festa atrás de festa, arraiais, família reunida… Para um cérebro que já não filtra tantos estímulos, torna-se como uma panela de pressão. Pode levar a pessoa de férias, mas deve planear as coisas atempadamente, nomeadamente o local, dando preferência a lugares conhecidos, com boas memórias. Levar objetos significativos, ou decoração da casa habitual, podem fazer a diferença para as alturas de maior desorientação/confusão.

É importante: manter horários consistentes; ir oferecendo água um pouco de cada vez, muitas vezes ao dia; evitar a exposição ao calor nas horas de maior risco; privilegiar ambientes tranquilos e familiares; organizar grupos de convívio mais pequenos; usar identificação pessoal em saídas; evitar dar ordens, nem argumentar as mudanças; simplificar estímulos; usar a estratégia de apresentar uma necessidade como uma prenda; fazer comida mais leve (mantendo quantidade de proteína); descortinar se está perante um sinal de alarme ou perante consequências de mais um dia de calor.

“E ao fim do dia, bem abraçados
A ver o pôr do sol…”

Equipa Projeto Memorizar

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