Viver numa Casa de Acolhimento onde moram 20 adolescentes, entre os 12 e os 18 anos, não é propriamente uma tarefa simples. Sobretudo porque nenhuma delas sonhou ou escolheu esta modalidade de vida. A vida escolheu por elas, ou melhor, as circunstâncias da vida acabaram por as trazer até nós. Nem sempre é fácil…
Já vos contámos várias vezes que são meninas que carregam histórias de vida difíceis, histórias que deixaram marcas, abalaram certezas e, muitas vezes, comprometeram a capacidade de confiarem em si próprias e nos outros. Algumas aprenderam demasiado cedo que nem sempre os adultos estão disponíveis, que as promessas nem sempre se cumprem e que aquilo que hoje parece certo pode amanhã deixar de o ser.
Sabemos que um desenvolvimento saudável precisa de ambientes estimulantes, relações afetivas seguras e adultos disponíveis, capazes de acolher, orientar e estabelecer limites. A roupa de marca, as férias ou o último modelo de telemóvel são só pormenores, uma ínfima parte da equação para crescer feliz. O essencial está nos laços que construímos, na atenção que dedicamos, na previsibilidade dos cuidados e no afeto que não pode depender do humor do dia. É desta combinação que vão nascendo, pouco a pouco, crianças e jovens mais seguras, confiantes e capazes de reconhecer o seu próprio valor. E é aqui que entram as regras, as rotinas e os rituais. Três ingredientes que, numa Casa de Acolhimento, estão longe de ser meras exigências da organização doméstica. São instrumentos de cuidado, de educação e de construção de segurança emocional. São os aliceces invisíveis!
As rotinas ajudam a organizar o mundo. Quando a vida já foi tantas vezes imprevisível, saber o que vai acontecer a seguir pode fazer uma diferença enorme. Ter horários, conhecer as tarefas de cada dia e perceber o que se espera de nós reduz a incerteza, favorece a autonomia e permite que cada jovem se vá apropriando da sua própria organização. Na nossa casa, há horas para tudo: para acordar, tomar o pequeno-almoço, arrumar, estudar, limpar, usar o telemóvel, sair e regressar. Não é que tenhamos descoberto uma fórmula mágica para fazer caber tudo num dia, mas a verdade é que, com 20 adolescentes debaixo do mesmo teto, precisamos de alguma organização!
As regras estabelecem limites e ensinam a viver em conjunto. Comer sopa às refeições, fazer uma alimentação variada, tomar banho, lavar os dentes, dormir o suficiente, fazer a cama antes de ir para a escola, tomar o pequeno-almoço, não usar telemóvel às refeições ou, até, não andar descalça pela casa são algumas das orientações que fazem parte do nosso quotidiano. Umas estão mais relacionadas com a saúde e a higiene, outras com a autonomia, a responsabilidade e o respeito pelos espaços partilhados.
Pode parecer pouca coisa, mas é também através destes gestos aparentemente banais que se aprendem hábitos para a vida. As regras, quando são claras e coerentes servem para ajudar a crescer. Ajudam também a promover um sentimento de justiça, condição fundamental numa casa onde vivem tantas jovens, com idades, necessidades e histórias diferentes. Naturalmente, tratar todas de forma justa nem sempre significa tratar todas exatamente da mesma maneira.
Depois, temos os rituais, esses pequenos acontecimentos que dão identidade à nossa casa e que, sem grande alarido, vão construindo uma história comum. Decoramos os espaços para as diferentes épocas festivas, seja no Natal ou no Carnaval; organizamos o jantar de Natal com toda a equipa educativa num restaurante; jogamos ao amigo invisível, fazemos uma saída grande de férias escolhida pelas jovens, compramos com elas as suas prendas festivas ou celebramos o aniversário de cada menina.
São momentos que quebram a rotina sem a desorganizar, que criam memórias e que nos recordam que uma casa não é apenas um lugar onde se dorme, se come, se estuda e se cumprem horários. É também um lugar onde acontecem coisas boas, onde há tradições, onde se partilham alegrias e onde cada pessoa pode sentir que faz parte de algo. Os rituais trazem pertença e previsibilidade afetiva. Ajudam a criar um sentimento de identidade coletiva, sem apagar aquilo que torna cada jovem única. É o que acontece com os aniversários!
Festejar o aniversário parece uma coisa elementar. Afinal, quem não teve direito a um bolo, a umas velas e a um dia em que é o centro das atenções? Pois bem, na nossa casa, vamos descobrindo que há meninas para quem esta experiência não foi assim tão elementar. Algumas nunca tiveram oportunidade de viver uma celebração pensada para elas com direito a escolhas!
É por isso que este ritual nunca é apenas mais uma tarefa no calendário da nossa casa. Celebrar um aniversário é muito mais do que apagar velas. Na nossa casa, a aniversariante escolhe o tema da festa, quase sempre inspirado nos seus ídolos, porque há paixões que não se discutem! e também o menu da sua festa. Pensamos na decoração, preparamos a festa e fazemos questão de assinalar a data, importa que ela perceba que foi lembrada e que a sua existência merece ser celebrada. Este ritual permite-lhes fazer escolhas, sentir-se valorizadas e perceber que há adultos que se mobilizam para lhes proporcionar momentos felizes. Não apaga as dificuldades do passado, mas pode ajudar a construir novas memórias, mais seguras e afetuosas.
Vamos evoluindo, ajustando procedimentos e introduzindo mudanças, mas há rituais que não queremos perder. Este é, seguramente, um deles!
Numa Casa de Acolhimento, onde tantas histórias começaram por ser marcadas pela instabilidade, talvez uma das coisas mais importantes que possamos oferecer seja precisamente esta, um lugar onde há regras que protegem, rotinas em que se pode confiar e momentos felizes que se vivem!
Casa de Acolhimento Residencial
