Desporto
Entre 11 de junho e 20 de julho de 2026, decorreu a 23ª edição do Campeonato do Mundo de Futebol, a segunda maior competição desportiva internacional, logo atrás dos Jogos Olímpicos (JO). Decorre de 4 em 4 anos, intercalada com os JO e mobiliza a atenção mediática à escala mundial durante vários meses. Realizou-se, pela primeira vez, em 3 países (Estados Unidos, Canadá e México), embora os Estados Unidos tenham tido a grande maioria dos jogos e os maiores encargos de organização.
Um pouco de história
A primeira edição decorreu no Uruguai em 1930 e, a partir daí, as edições têm decorrido com a periodicidade prevista, com as exceções de 1942 e 1946, que não se realizaram devido à 2ª guerra mundial.
Também o número de interveniente tem vindo a aumentar regularmente, passando dos iniciais 13, para 16, até se fixarem em 32, durante muitas edições. Pela primeira vez, a prova teve 48 países participantes na fase final, colocados em 12 grupos de 4, de que se apuraram 32 para uma segunda fase com eliminatórias a um só jogo.
A 23ª edição do Mundial
Devem-se registar nesta edição, alguns aspetos interessantes:
O primeiro, foi a emergência da figura de Trump, que interferiu muitas vezes onde não devia: na proposta de substituição do Irão pela Itália (não concedida), na despenalização de um jogador americano expulso (concedida), no ridículo de se colocar, feito emplastro, na fotografia da seleção vencedora. A aplicação diferenciada dos procedimentos de entrada nos EUA, que variaram entre extremos, consoante o estatuto de cada país, foi chocante e deveria ter levado ao abandono imediato de vários países. Comparei-o a Hitler, que também foi a “vedeta” dos Jogos Olímpicos de 1936, realizados na Alemanha, onde era Chanceler e a sua figura “pairou” sempre, acima de tudo e de todos.
Desportivamente, a prova decorreu com um excelente nível organizativo, uma cobertura mediática excessiva, mas habitual e uma supremacia ainda mais evidente das seleções europeias. Predominaram, como habitualmente, as estratégias defensivas, que claramente diminuem o Futebol como espetáculo, tornado monótono e aborrecido. Como seria tudo diferente, se todos os jogos fossem como o França-Inglaterra, que terminou com o resultado de 4-6. 10 golos: emoção, expetativa, incerteza, qualidade.
A seleção de Cabo Verde merece uma referência: pela sua humildade, pela sua dedicação, pela forma leal como competiu (não vi uma única jogada violente, própria das equipas africanas) e, também, pela qualidade de alguns jogadores que, sendo medianos, se excederam. E fica na memória de todos a excelente jogada do segundo golo contra a Argentina e que culminou com um espetacular remate de Sidni Lopes Cabral – considerado pela crítica desportiva como o melhor golo do campeonato. Aqui se prova como um pequeno país (ainda por cima pobre) se pode exceder e ombrear com os maiores.
Por fim, a Espanha, um justo vencedor, embora com a estrela da sorte que, muitas vezes, protege os campeões (recorde-se, que não conseguiu ganhar à seleção de Cabo Verde, embora tenha dado o máximo).
A participação portuguesa
Portugal possui, inegavelmente, um conjunto de futebolistas de nível mundial, que atuam nos melhores clubes europeus e a Transfermark avaliou a seleção portuguesa em mais de mil milhões de euros, somando as cotações individuais de todos os jogadores.
Tradicionalmente, criam-se grandes expectativas e todos se procuram convencer que “..desta vez é que vai ser…”. NÃO FOI e, mais uma vez, a história repetiu-se: todos os 5 jogos realizados foram cinzentos e sem brilho, nenhum deles estando à altura de um candidato a campeão mundial.
Porquê? Porque é que jogadores de excelência não fazem uma equipa de excelência? Muita gente dissertou sobre as causas que, quanto a mim, se situam a 3 níveis: faltou liderança, faltou alma e faltou um posicionamento tático ajustado.
A falta de liderança tem a ver com o estatuto do treinador, que claramente não tem carisma nem currículo que lhe permita conjugar os egos de tantas estrelas e fazerem-nas exceder o seu desempenho. A falta de alma avalia-se pela comparação com os jogos da seleção de Cabo Verde, onde todos os jogadores disputavam cada lance, como se fosse o último lance do jogo. Quanto às questões do posicionamento tático da equipa, elas decorrem, em grande medida, da presença de CR, considerado indiscutível (pelo seu passado e pelo interesse comercial que representa) mas que se constitui como um fator bloqueador das dinâmicas ofensivas. Joga-se quase sempre devagar, a passo, com jogo lateralizado e muitos passes curtos. E arrisca-se pouco, muito pouco.
Enfim… mais uma vez saiu-se sem honra nem glória e, como habitualmente, a deceção foi geral. Será para a próxima, em 2030, na 24ª edição em que Portugal será um dos países anfitriões?
Até 2030…
Paulo Branco
