OPINIÃO

Sobre a ponte de madeira da Vista Alegre

Cantinho de João Ferreira
Vários jornais têm falado sobre isto, mas ninguém sabe a história desta ponte como o vosso modesto articulista: as pessoas que vinham de Vagos para a Vista Alegre pelo “Caminho dos Cardais”, tinham de fazer a travessia de bote, e de cada margem tinha homens à espera para se cobrar. Visto esta situação ser, um tanto ou quanto, aborrecida, dois indivíduos, hoje já finados, fizeram peditório por toda a Gafanha da Boavista, toda a Vista Alegre e Vagos também. Um deles era de Vagos, mas casado na Gafanha da Boavista, Sr. António de Oliveira Fresco, e o outro era da Gafanha da Boavista, Sr. Manuel Janica Gregório, cuja viúva morreu faz pouco tempo.
Ora o caso raro, não é o peditório ter sucedido em recolher o suficiente para a ponte que ainda hoje lá está, mas sim a promessa do Sr. Manuel Janica Gregório, de dar um abraço no meio do rio pela Primavera ao Sr. Manuel Abegão, construtor da Vista Alegre, por forma a rezarem boa sorte ao peditório, feitura e manutenção da ponte. O peditório durou alguns meses e foi bem-sucedido, hoje em dia duvido que que o fosse… e a feitura da ponte foi já durante a segunda edição do Eco de Vagos no seu primeiro ano: 1976.
O Eco na altura era um jornal “pirata”, pertença de ninguém, pois não era registado ainda. Era liderado por uma equipa de pessoas filiadas ao Partido Comunista Português, mas a maioria do trabalho que se lavrava era pela parte do vosso modesto articulista. Um pouco mais tarde, esta “equipa-maravilha” de seis indivíduos, veio a largar toda a documentação, pertences e lista de assinantes à minha casa, sendo que eles não conseguiam sem mim, mas eu com eles não queria. Assim, e já com a posse do jornal, fui à inauguração desta ponte para fazer crónica.
Tropelias desta equipa comunista, ainda que sendo seis, não trabalhavam tanto quanto eu só… por vezes, até me atrapalhavam: ora passou-se que na primeira página sempre constou: “Jornal mensal, democrático e defensor dos interesses locais”, algo que os meus “colegas” trocaram por: “Jornal mensal, revolucionário e defensor dos interesses locais”. As pessoas na rua é que me avisaram! E quando fui à tipografia “Ilhavense” (que já parou negócio), disse para o chefe:

– Olhe, visto o jornal estar atrasado, eu paguei este mês e o próximo com o meu próprio dinheiro. E não lhe admito que esteja a fazer estas alterações sem o meu aval.
O chefe da “Ilhavense” que era comunista também (talvez daí ter ajudado a seita), acanhou-se e quase nem respondeu. Mais tarde enviou um carta para minha casa sem selo, sendo que tive eu que lhe pagar a multa também, a dizer coisas tão inúteis que já nem me lembro o que eram.
Hoje em dia, a ponte de madeira que sai da Vista Alegre é digna de todo o tipo de notícias, o problema nasce quando os cronistas e escritores dos mesmos, não sabem o que de facto se passou: nem Sr. António, nem Sr. Manuel, nem peditório, nem abraço no meio do rio, nada. Ao que parece, a memória serve melhor a quem de facto a viveu.
Um grande abraço aos ávidos leitores,

João dos Santos Ferreira

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