Editorial
Cinquenta e dois anos depois do 25 de abril, ainda não faltam testemunhos vivos de quem vivenciou o antes e o depois do momento que mudou, para sempre, Portugal. E todos os anos, neste mês, se multiplicam as entrevistas a essas caras, se recordam os acontecimentos, se lançam livros sobre a efeméride e se repetem filmes e documentários sobre o tema. Nunca é demais, devo dizê-lo.
Se para alguns jovens a Revolução dos Cravos já é, só e apenas, algo que estudam nos livros de História – mesmo que 52 anos tenha sido “ontem” –, custa-me imaginar um país que cale a história da nossa democracia. E não a calar é repeti-la, se for necessário, até à exaustão. Para os mais velhos, será sempre um lembrete. Para os mais novos, pode ser o acordar.
Um dia, inevitavelmente, as vozes (agora) vivas de Abril vão calar-se. Como algumas, aliás, já partiram. Então, é necessário que agora se escutem, se gravem e se eternizem. E as vozes de Abril não estão só nas televisões ou nos jornais. Ainda estão à nossa volta, nos cafés, na rua, nas instituições públicas e, em muitos casos, dentro da nossa própria casa. Quem já era nascido a 25 de abril de 1974 tornou-se, irremediavelmente, uma voz viva de abril, de uma forma ou de outra. Continua a ser necessário ouvi-las.
Num país onde ainda perduram resquícios – demasiados, até – de 48 anos de ditadura, 52 anos de liberdade não significam liberdade eterna. Aliás, nem em Portugal nem em qualquer país. Mas é difícil imaginar um cenário de opressão, quando se vive num mundo tão livre, tão tecnológico, tão sem amarras como o que experienciamos hoje. Um mundo onde a evolução cavalga todos os dias, ainda que, discretamente, possa estar a dar passos atrás em determinadas liberdades individuais.
É fácil esquecer o que ficou na década de 70 do século passado. Por isso, impõe-se que estejamos vigilantes, para que “o dia inicial inteiro e limpo” de Sophia de Mello Breyner Andresen seja todos – todos, todos, todos – os dias do calendário. Sem nuvens.
Salomé Filipe
Diretora do Jornal
