OPINIÃO

Quando o que necessitamos é de um novo PRR

Opinião

Agora que (penso eu!) o título desta pequena crónica já terá captado a atenção dos leitores, passo a partilhar a minha reflexão e a esclarecer o seu tema.
Sou professor há mais de três décadas.
Quando se olha para o passado e se “mede” em vários decénios a nossa história de vida, será impossível não estabelecer comparações entre o “Antes” e o “Agora”. Não creio que o deva fazer sob uma ótica saudosista (ou, como é mais usual ouvir-se, “revivalista”) que nos faz repetir, inconsequentemente, que “antigamente é que era” e que “tudo mudou para pior”. Tento sempre partir de um ângulo que permita fitar o que ficou para trás com lucidez, mas sobretudo como um pilar para se entender o presente. Assim tenho pautado a minha prática docente, ao ver passar tantas gerações de jovens estudantes. Em cada uma das sucessivas “levas” de alunos tenho sempre conseguido identificar os contributos que trazem para os novos tempos com o seu pensamento, com as suas condutas e com as suas inovações.
Além de tudo isto, também sempre me preocupei em conhecer e perceber quais as inspirações e quais as referências que iam influenciado as “massas” de adolescentes, ao longo destas décadas. Descobri, com os meus primeiros alunos que “etariamente” encerraram o que podemos considerar a “geração X” (à qual pertencemos os nascidos nos anos 70 e inícios dos 80), figuras da música, da televisão, do desporto, etc… que, apesar do “vedetismo” e, tantas vezes do seu “inconformismo” não descuravam o seu lado humanista e de intervenção social. O mesmo sucedeu com os alunos seguintes, nascidos nos anos 90, que já integravam a denominada “geração Y” e que fizeram o seu percurso de educação no novo milénio (os chamados “Millennials”). Por se constituírem como a primeira geração a crescer com o acesso generalizado à tecnologia digital, as suas referências eram, necessariamente, diferentes das minhas, porém não descuravam o seu lado mais interventivo e humanitário.
Contudo, foi com a geração Z, principalmente os nascidos no novo milénio (os chamados “Centennials”) que me comecei a aperceber da mudança de paradigma. Alunos que, paulatinamente, deixavam de ter como referências figuras cujas vidas analógicas públicas incluíam o desejo de transformação positiva da sociedade e passaram a ver como modelos comportamentais e de pensamento os chamados “influenciadores digitais”. Algo que, mais recentemente, se acentuou com os alunos da geração Alfa, os “screenagers”, que passam horas a fazer scroll nos telemóveis.
Para mim está a ser uma transformação abismal em que assisto, quase de forma impotente, à substituição de referências humanistas por influenciadores que se “fabricam” digitalmente, atrás dos ecrãs dos computadores, muitos deles catapultados para a fama por vídeos que não excedem um par de minutos a fazer e dizer frivolidades.
E aqui o que mais me atemoriza nem é o impacto que têm as redes sociais que disseminam os novos influenciadores (já, por si, grave!), mas sim os temidos algoritmos, sob os quais elas operam, que privilegiam (e até recompensam) a superficialidade e o “imediatismo”, promovendo modelos baseados no consumismo, no poder da imagem, na intolerância… que facilmente vão depreciando o sentido crítico, corroendo os valores baseados na dignidade humana e devorando os ideais humanistas. Com isso, muitos dos meus atuais alunos têm deixado de ter como modelos figuras históricas ou intelectuais e passaram a “endeusar” os criadores de conteúdos.
Para isto alertava o saudoso Papa Francisco quando denunciava a “ilusão da comunicação” nas redes sociais que impede, tantas vezes, o encontro com o real e diminui a nossa capacidade de “escutar o Outro”.
Nas redes sociais, muitas das interações resumem-se a “gosto/não gosto” e o algoritmo está lá para catapultar “essa opinião” e depois acirrar as polémicas. Precisamente o oposto do que deveria suceder. Recordo o ex-Presidente Jorge Sampaio, uma das minhas maiores referências, para quem viver a tolerância era “entender e respeitar as nuances”, reconhecendo que ninguém é dono da verdade total. Num tempo em que a nossa juventude é exposta ao ruído das redes, o seu legado recorda-nos que o bem-viver exige escuta e cedência. Como preconiza outro Jorge (Moreira da Silva), igualmente uma voz ponderada, mas de um outro espectro político distinto, se os jovens atuais querem enfrentar os desafios do nosso século não se podem contentar com as fórmulas fáceis que se apresentam nas redes, nem abraçar os populismos digitais. Devem sim, aprofundar os conhecimentos, desenvolver a ciência, praticar um multilateralismo ativo baseado na responsabilidade coletiva e na honestidade intelectual.
Voltando à sigla PRR, que inseri no título desta crónica, creio que todos os educadores, sobretudo pais e professores, deveríamos fazer um pacto que contemplasse um Plano de Recuperação de Referências. Nunca com o objetivo de padronizarmos o pensamento dos nossos jovens e crianças, antes no sentido de lhes mostrarmos que, na diversidade, na utopia e na inquietação se pode arquitetar, como dizia a nossa única primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo, uma sociedade centrada na dignidade humana e no “cuidado do Outro”.
Acredito que será esse o caminho para devolver aos nossos jovens, em geral, e aos meus alunos em particular, a sua humanidade, o seu papel de cidadãos críticos e incutir-lhes o imperativo da missão de transformarem positivamente o mundo em que vivemos.

Jorge Carvalhais

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