Opinião
Ainda hoje permanece na minha memória, de forma indelével, a emoção e alegria que senti por experimentar a beleza que é viver num contexto de liberdade: liberdade de exprimir as minhas ideias sem medos; liberdade de me juntar com os meus amigos sem receio que alguém nos estivesse a espiar na sombra. No entanto, também sempre existiu em mim a preocupação de que, o exercício das minhas liberdades, não estivesse a prejudicar a liberdade do outro.
Já faz 52 anos que foram criadas as condições objetivas para que a Democracia pudesse ser verdadeiramente vivida em Portugal. Como o tempo passa rápido!
Quem viveu antes de 1974, como é o meu caso, tem alguma facilidade em fazer um exercício de comparação entre o antes e o depois dessa data. Sentiu na pele as amarras de um regime que nos oprimiu durante 48 anos e experimentou depois a alegria do que é viver numa sociedade aberta e arejada.
Felizes aqueles que têm o privilégio de viver num regime político que tem como pano de fundo um quadro de liberdades diversificadas que estruturam o ambiente social em que diariamente se vive e convive.
Porém, as gerações que nasceram depois de 1974, como viveram sempre num ambiente democrático, partem do princípio de que a Democracia é uma conquista que não há nada que a derrube. Mas não é bem assim!
A Democracia é como uma pequena planta que tem necessidade de ser regada todos os dias, sob pena de definhar e morrer.
Os valores que hoje consideramos centrais, nomeadamente, a liberdade religiosa, o pluralismo político e a dignidade humana, bem como o princípio da igualdade entre todos os cidadãos e cidadãs não são heranças automáticas
da História, mas sim conquistas duramente aprendidas.
Mas cuidado! Os inimigos da Democracia estão aí, sempre à espera da sua oportunidade:
Há lideres que estrategicamente dividem a sociedade. De um lado temos o Povo puro e do outro temos a elite política corrupta. – O espírito de missão e o compromisso político foram sendo substituídos pelo confronto direto, que transforma adversários em inimigos, o que enfraquece a governação. – Há hoje uma permanente manipulação digital, com recurso a algoritmos para criar bolhas de informação e espalhar mentiras, o que compromete muito a capacidade dos eleitores para tomar decisões verdadeiramente informadas. – Quando os Regimes Democráticos falham nos seus objetivos de prosperidade e segurança, as populações tendem a procurar soluções fortes em regimes autoritários. – A falta de participação dos cidadãos tem vindo a ampliar fortemente o desinteresse cívico pela coisa pública. – A juntar a tudo isto, temos também o desprestígio da Justiça e das suas decisões.
Está instalado um ambiente propício à tomada de decisões mais musculadas, o que reclama, de todos, uma atenção permanente e cuidada e, acima de tudo, o aumento da participação cívica consciente e oportuna.
João Pedro Mateus
