OPINIÃO

A1 colapsa, mas a porta giratória continua aberta

Opinião
Portugal é um país tão peculiar que até as suas prioridades têm prioridades. Podem cair pontes, abrir crateras nas autoestradas, fechar maternidades, colapsar serviços públicos, mas há uma infraestrutura que nunca falha, nunca avaria, nunca sofre cortes: a porta giratória que liga o poder político aos grandes interesses económicos.
Essa, sim, é a obra-prima nacional. É o único equipamento público que não precisa de manutenção, inspeção ou concurso público. Funciona sempre. Funciona para todos os partidos. Funciona até para aqueles que juravam ser “antissistema” e que agora, com o apetite afinado, já comem no tacho do sistema com a mesma destreza dos veteranos. A reciclagem mais eficiente do país não está nos ecopontos, está na política.
Portugal recicla mal plástico, pior vidro e quase nada de resíduos orgânicos. Mas quando se trata de reciclar políticos, somos líderes mundiais.
É o único setor verdadeiramente circular do país:
entra-se pela política,
sai-se pela empresa,
volta-se pela fundação,
regressa-se pelo gabinete,
repete-se o ciclo até que o currículo fique tão polido que parece inox.
E o mais fascinante é que todos os partidos participam. Da esquerda à direita, passando pelos que se diziam “contra o sistema”, “anti casta”, “revolucionários”, “a voz do povo”. Bastou-lhes um cheirinho a carpete nova e a ar condicionado institucional para perceberem que afinal o sistema… até é confortável.
Os antissistema que descobriram o sabor do tacho
Há uns anos, juravam que vinham “acabar com os privilégios”. Hoje, descobriram que os privilégios afinal são bastante agradáveis. Juravam que “não se vendiam ao sistema”. Hoje, o sistema nem precisou de os comprar — eles ofereceram-se. É vê-los a circular entre gabinetes, comissões, administrações e consultorias com a mesma fluidez dos veteranos. Afinal, a porta giratória não distingue ideologias. É inclusiva. É progressista. É transversal. É o único mecanismo verdadeiramente democrático do país: todos os partidos têm direito a rodar. A desculpa da inevitabilidade, o hino nacional não oficial
Sempre que alguém ousa questionar esta dança, lá vem a frase feita: “Num país pequeno, é inevitável”. Inevitável é a nortada na costa, não a promiscuidade entre quem decide e quem lucra. Mas a frase cola, porque dá jeito. É o escudo perfeito para quem prefere a porta giratória à porta da rua. A verdade é simples: não é inevitabilidade, é conveniência. E conveniência bem oleada, com amortecedores hidráulicos e tapete vermelho. O país real paga a conta, até o pacote premium da Sport TV.
Enquanto o cidadão comum luta com salários curtos, serviços exaustos e promessas que nunca chegam ao terreno, há sempre espaço no orçamento para pequenos luxos simbólicos.
É aqui que entra a imagem perfeita da nossa política: a ideia de uma Sport TV instalada na residência oficial, paga pelos contribuintes.
Não interessa se é mito urbano, exagero ou metáfora — interessa o que representa. Interessa o retrato de um país onde o contribuinte paga a conta e o poder desfruta do pacote premium. Porque, no fundo, a Sport TV não é um canal. É um símbolo. Um símbolo de um Estado que exige sacrifícios ao povo enquanto mantém os confortos de quem governa. A economia circular das elites — sempre a girar, sempre a subir
O país assiste, impotente, ao desfile dos mesmos nomes por gabinetes, empresas públicas, consultoras, concessionárias e fundações. É um carrossel de elite: gira sempre, mas só para alguns.
Hoje fazem leis, amanhã beneficiam delas. Hoje regulam, amanhã são regulados. Hoje defendem o “interesse público”, amanhã defendem o “interesse do acionista”.
E tudo isto com a naturalidade de quem troca de camisa.
O cidadão comum? Esse continua a preencher formulários, a esperar meses por respostas, a pagar taxas que se multiplicam como cogumelos. O silêncio cúmplice, o cimento que mantém tudo de pé ou quase tudo? O mais impressionante não é a existência das portas giratórias. É o silêncio. O silêncio cúmplice, confortável, quase institucionalizado. Os partidos evitam o tema. As empresas agradecem o talento reciclado. Os comentadores encolhem os ombros. E o cidadão comum, cansado, resignado, já nem se indigna, apenas constata. É este silêncio que mantém o sistema vivo. É este silêncio que permite que tudo continue igual. É este silêncio que transforma a exceção em regra. Enquanto a porta gira suavemente para os mesmos de sempre, o resto do país leva com a ventania. Uma ventania que nunca sopra para dentro das salas de conselho, onde o ar é climatizado e a vista é panorâmica. A porta giratória não é apenas um símbolo. É o verdadeiro brasão nacional: elegante, silenciosa e sempre pronta a devolver ao interior os mesmos rostos satisfeitos. Pode cair um troço da principal autoestrada do país. Pode ruir uma ponte. Pode fechar um serviço essencial. Mas as portas giratórias estão sempre com inspeções em dia.
Joaquim Plácido

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