ECO DA SANTA CASA

“Rosa, a tua comida continua a ser Memória!”

Corrigir e/ou fazer pelo nosso familiar que tem demência pode acelerar o seu declínio cognitivo. Há estratégias que podemos adotar de modo a proporcionar-lhe mais autonomia e trazer maior leveza ao ato de cuidar.
É muito importante considerarmos as atividades que foram significativas para a pessoa ao longo da sua vida, como a D. Rosa que foi cozinheira. Hoje em dia ainda faz o jantar, mas nem sempre a comida fica tão saborosa. Não faz perfeito, mas faz!
Podemos pensar que a D. Rosa, como sempre cozinhou, o vai conseguir fazer mesmo com demência, quase em “piloto automático”, mas a verdade é que já não o vai conseguir fazer como sempre fez. O cérebro foi perdendo parte das ligações que permitiam a sequência de informações para realizar as tarefas na cozinha. A solução não é a família começar a substituir a D. Rosa nas tarefas, mas sim auxiliá-la nas suas dificuldades e mantê-la presente.
A D. Rosa troca a ordem da confeção da sopa, colocando os legumes a cozer, sem água. O cuidador nesta situação pode antecipada e naturalmente, colocar água na panela.
Por outro lado, a comida da D. Rosa não tem o mesmo sabor, muitas vezes está salgada, tendo em conta que se esquece que já a temperou. Reclamar à mesa, ou insinuar que já não sabe cozinhar, não vai ajudar a D. Rosa numa próxima (talvez até a afaste da cozinha…). O cuidador pode controlar os temperos que estão à disposição quando a D. Rosa está a cozinhar, por exemplo, o saleiro ter sempre uma quantidade pequena de sal.
Também se verificam alguns medos na cozinha por parte dos cuidadores, nomeadamente receio que a pessoa se corte, se queime, provoque um incêndio, fuga de gás… Nestas alturas, não vamos impedir a D. Rosa de cozinhar, vamos adaptar utensílios e adotar algumas medidas de segurança. Ou seja, a D. Rosa pode ir lavando os vegetais enquanto o cuidador os corta ou, caso ela queira cortar, utilizar utensílios menos afiados. Colocar detetor de gás e incêndio pode ser fundamental, bem como uma supervisão “natural – o cuidador estar “distraído” a ler o jornal na cozinha.
A modernice pode ser uma quebra-cabeças mas, por outro lado, um auxílio na cozinha, nomeadamente eletrodomésticos como uma micro-ondas, uma chaleira elétrica ou uma “simples” máquina de café. A ideia não é (re)ensinar à pessoa com demência como é que se trabalha com estes aparelhos, mas sim simplificar (porque a aprendizagem de novas informações ou recuperar memórias perdidas, teoricamente, em muitas demências, é algo muito difícil). Colocar um simples autocolante verde no botão que faz ligar o micro-ondas pode ser o suficiente, ou colocar números que ditam a ordem de execução para trabalhar com um determinado eletrodoméstico, também.
Se corrigirmos, substituirmos a pessoa, considerarmos que é preguiça, ou teimosia, mostrarmos que sabemos fazer melhor, não permitirmos que faça e/ou comunicarmos de forma mais brusca ou sem paciência, podemos estar a levar a um processo de demência mais doloroso para todas as partes.
É muito importante irmos dando conta de quais vão sendo as dificuldades da D. Rosa, porque ao longo do tempo estas vão mudando e temos de preparar a estratégia mais adequada. Observar o que está a acontecer, escutar com o coração as dificuldades e gatilhos, fazer pequenas mudanças no discurso como dizer “vamos fazer” em vez de “faz!” ou validar o esforço, pode fazer realmente a diferença na vida da pessoa com demência e do seu cuidador. No caso da D. Rosa pode devolver-lhe um sentimento de pertença, utilidade, tirar-lhe a pressão do desempenho na cozinha e permitir-lhe disfrutar de algo que sempre lhe deu prazer e, agora, de forma partilhada. Pode tirá-la de estar deitada no sofá sem rumo ou de estar aborrecida ao final do dia, só a fazer perguntas (e sempre as mesmas perguntas) porque até então o dia foi entediante e dar-lhe uma rotina mais feliz.
É possível viver melhor com demência!

Equipa Projeto Memorizar

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