Adolescente foi condenado pelo tribunal a um máximo de três anos de internamento, por ter matado a mãe
O filho de Susana Gravato, a vereadora da Câmara de Vagos que, em outubro, foi assassinada com dois tiros na cabeça, na sua residência, na praia da Vagueira, foi condenado a um máximo de três anos de internamento em regime fechado, pela morte da mãe. A decisão do Tribunal de Família e Menores de Aveiro foi conhecida no dia 17 de abril, numa sessão aberta à comunicação social, ainda que o julgamento tenha decorrido à porta fechada, por se tratar de um menor.
O tribunal deu como provado que o adolescente, de 14 anos, foi o autor dos tiros que colocaram termo à vida da mãe, a 21 de outubro. E a juíza deixou claro que o mesmo não se emocionou, mantendo uma expressão inalterada, quando descreveu em julgamento o crime que cometera. Não foi encontrada, também, qualquer razão para o jovem atentar contra a vida de Susana Gravato, com o tribunal a realçar a frieza de ânimo demonstrada, mesmo depois de a mãe, após ter sido atingida pelo primeiro tiro, lhe ter dito “está tudo bem, tem calma”.
Por apresentar “traços de psicopatia”, o tribunal determinou que o jovem terá de ter acompanhamento psicológico. A medida de internamento aplicada, que será revista de seis em seis meses, até ao final dos três anos, é a mais gravosa daquelas que são aplicadas a menores com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos.
Beijou a mãe
O testemunho do jovem, assim como outras provas, permitiram ao tribunal reconstruir o que aconteceu no dia da morte de Susana Gravato, depois de a autarca ter ido buscar o filho à escola e de ter almoçado com ele e com o marido no restaurante situado em frente à casa onde a família vivia.
De acordo com a súmula do acórdão do tribunal, o adolescente saiu do restaurante antes dos pais, dando um beijo na cabeça da mãe e dirigindo-se para casa. Chegado à habitação, deslocou-se ao roupeiro do quarto dos progenitores, de onde retirou a arma de fogo do pai, tirando da mesa de cabeceira algumas munições ali guardadas.
De seguida, o jovem dirigiu-se ao cofre da casa, abriu-o e subtraiu de lá cerca de 20 mil euros. Aproveitou, também, para procurar noutros locais da casa por mais dinheiro, tendo guardado num saco plástico cerca de 30 mil euros em numerário. No interior da sua mochila, colocou todo o dinheiro, as munições, um punhal ornamentado, com 12 cm de lâmina, um rolo de fita adesiva e dois pacotes de pastilhas elásticas, pousando a mala na garagem.
Susana Gravato e o marido foram para casa por volta das 14 horas. Dali, o homem despediu-se do filho e da mulher e seguiu para a drogaria da qual é proprietário, a 200 metros da residência. A vereadora ficou na moradia, a partir de onde iria trabalhar durante a tarde. E sentou-se no sofá da sala, ao telefone com uma funcionária da Câmara, com a qual conversou durante 27 minutos, até ser surpreendida pela retaguarda pelo filho, que de imediato a atingiu com um tiro na cabeça. “Está tudo bem, tem calma”, disse Susana ao adolescente, antes de o mesmo disparar uma segunda bala.
Arma escondida no cemitério
Tapando a cara e o tronco da mãe com uma manta, o adolescente preparou-se para fugir. Junto ao portão da garagem, com um tiro, inutilizou o telemóvel e lançou-o para uma piscina – de onde viria a ser recuperado pela Polícia Judiciária. Depois, na companhia de um amigo, dirigiu-se à campa dos avós paternos, no cemitério da Gafanha da Boa Hora, onde escondeu a arma, afastando a pedra tumular.
Já em casa, o adolescente tentou convencer o pai de que teria ocorrido um assalto à moradia, “envolvendo indivíduos encapuzados”. A tese viria facilmente a ser desmontada, com o jovem a acabar por admitir a morte da mãe.
O tribunal entendeu que o adolescente carece de “ser educado para o direito” e que “deverá beneficiar de uma intervenção prolongada, multidisciplinar e estruturada”. Assim, terá acompanhamento pedopsiquiátrico e psicológico regular e será sujeito a monitorização longitudinal, “por forma a que os traços de personalidade detetados na adolescência não se consolidem em perturbação de personalidade antissocial na idade adulta, com risco acrescido de criminalidade violenta”. O pai e o irmão também receberão acompanhamento psicológico.
S.F.
