EFEMÉRIDE

Paróquia de Santo André Livro

Efeméride


“Memórias que são vida”

Autor do livro “Paróquia de Santo André de Vagos – memórias que são vida”, apresentado no salão da atual igreja matriz, deixou recado aos presentes: “Não podemos esquecer a memória. Vocês, porque os mais novos têm de saber que esta paróquia custou muito, muito sofrimento”.
Natural da freguesia de Santo André, Pe. Manuel Joaquim Estevão da Rocha referia-se aos tumultos e divisões, vividos pela paróquia, no final dos anos 70, incluindo das tentativas de invasão da casa do pároco, Pe. Manuel Alexandre Rocha, falecido em outubro de 2004.
Presente na apresentação da obra, o Bispo de Aveiro afirmou que o livro não deixa de ser uma homenagem à terra. “Homenagem a todos vós, porque a Igreja faz-se com todas as pessoas, mesmo com os que dizem que não, mas depois aparecem e ajudam a construir a comunidade”. Na sua intervenção, D. António Moiteiro acabaria por sugerir que fosse dado o nome do Pe. Alexandre a uma rua da freguesia, para recordar aquele que foi pároco de 1959 a 1991 (a paróquia foi criada em 1956).
Paulo Silva, presidente da Junta de Freguesia, tinha nove anos e contou que na altura viu passar alguém com uma “pressão de ar”, que lhe terá dito “não é uma grande arma, mas ainda dá para cegar alguém”. Quanto à proposta do prelado, deu conta que a mesma “é algo que está nos planos da autarquia”. Já Silvério Regalado reconheceu que “as igrejas são o património mais valioso do concelho de Vagos”. Como tal anunciou que “o município iniciou um trabalho de fazer referência histórica” a cada templo, colocando uma placa à entrada de cada igreja. “Fazer memória é um ato de construir o futuro”, disse o presidente da Câmara.
Memória. Controversa à época, a localização do novo templo foi vivamente contestada, pela comunidade local. Em 1979, alguns preferiam que fosse construído “para os lados de São Romão”. Outros elegiam um novo local, popularmente chamado “atrás da Moita”, que admitiam ser no centro da freguesia, e que alegadamente “melhor servia o povo”.
Dividida, a população não se conformava com o encerramento ao culto da igreja velha, depois de o Pe. Alexandre ter “corrido do templo”, com o auxílio do sacristão, algumas idosas, que ali se encontrariam a rezar. Mais: que teria entrado para “tentar cortar os fios elétricos”, que alimentavam o funcionamento do relógio, para mais tarde ser apeado.
A revolta do grupo contestatário veio logo a seguir. Segundo relatava o mensário Eco de Vagos, a povoação “encheu-se de gente armada de varapaus, de espingardas e catanas, quando soou o boato de que o relógio iria ser apeado”. Alegadamente, estavam todos contra o Pe. Alexandre e seus seguidores. Terá confessado, mais tarde, que aquilo que “mais lhe custara foi ouvir criancinhas, confessadas na véspera por ele, aos gritos de morra o padre, morra o padre”.
A verdade é que, mantendo o braço de ferro com os paroquianos, aquele sacerdote passaria a celebrar as missas dominicais, no local onde estava prevista a edificação da nova igreja. À semana eram rezadas no salão, anexo à residência paroquial. Razão tinha o Terras de Vagos que, na edição de abril de 1983, felicitava efusivamente o Pe. Alexandre. Num texto assinado, podia ler-se que “neste dia esqueceu por completo os sacrifícios, e talvez as lágrimas que derramou, ao longo deste caminho doloroso, mas histórico”.

Eduardo Jaques

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