Opinião
Vivo na Gafanha da Boa Hora, onde o vento não perdoa e a maresia não deixa ninguém dormir na ilusão. Talvez por isso me esforço, com a paciência de quem vive entre dunas e marés, para explicar esta nova geração de políticos comentadores que acredita que governar é apenas falar depressa, gesticular muito e parecer indignado em frente a uma câmara.
O país assiste, atónito, a um reality show governativo onde cada conferência de imprensa parece escrita por alguém que acha que a política é um programa da manhã: muita espuma, muita velocidade, muita pose, pouca substância. A comunicação tornou se um número de circo — e o Governo, um conjunto de acrobatas que confundem entusiasmo com competência.
A última proeza foi anunciar ao país que o Estado vai… cumprir a lei. Horas extraordinárias pagas? Milagre. Direitos laborais respeitados? Revolução. Obrigações básicas? Aplausos, confetis, talvez até um direto televisivo.
É a política do favorzeco embrulhado em papel dourado: transformar o banal em épico, o obrigatório em extraordinário, o previsível em revelação. E esperar que o país agradeça a generosidade.
Mas a criatividade governativa não se fica por aqui.
Temos o monte alentejano, que aparece como personagem secundária numa novela de explicações incompletas, sempre com a promessa de que “tudo será esclarecido” — um dia, talvez, quando o guião estiver pronto.
Temos o atrelado peregrino, que decide fazer turismo interno: sai sozinho dos armazéns da Marinha portuguesa no Seixal e aparece em Barcelos, como se fosse um objeto místico em busca de redenção logística.
Temos ainda a pompa de anunciar ao país que este ano alguém não vai de férias — como se abdicar de jogar vólei na praia de Espinho fosse um milagre digno de canonização administrativa.
E, claro, temos a filosofia recém descoberta pelo ministro da Cultura: ser nomeado para um cargo é, afinal, uma espécie de chamamento divino. Falta apenas o porta voz iluminado vir explicar que esta é a nova doutrina governativa: quem fala depressa, gesticula muito e acredita sinceramente no seu próprio guião ascende automaticamente à categoria de estadista.
Mas nada supera a epopeia da digitalização dos exames — essa maratona kafkiana que indignou alunos, pais e professores. O país inteiro viu adolescentes a entrar em salas às oito da manhã e a sair ao fim da tarde, como se estivessem a disputar uma ultramaratona académica. Viu pais a fazer contas à vida, professores a tentar salvar o desastre com o seu tempo e a sua paciência, e escolas transformadas em centros de teste de resistência humana.
E no fim, o que ouvimos? Que o Estado vai pagar horas extraordinárias. Como se isso fosse um gesto de generosidade. Como se não fosse o mínimo dos mínimos. Como se não fosse o Estado a tentar remendar uma trapalhada criada pelo próprio Estado.
Eu, que vivo na Gafanha da Boa Hora, esforço me para explicar isto aos meus conterrâneos: não estamos perante governantes, mas perante comentadores promovidos, gente que acredita que a política é uma extensão natural da televisão. A pose é a mesma. O tom é o mesmo. A convicção é a mesma. Só falta perceberem que governar não é gesticular — é trabalhar.
O mais extraordinário é a confiança. Aquela certeza juvenil de que basta anunciar o óbvio com pompa para que o país acredite que está perante uma conquista civilizacional. Como se cumprir a Constituição fosse um gesto de altruísmo. Como se respeitar o Código do Trabalho fosse uma dádiva. Como se governar sem trapalhadas fosse pedir demais.
Mas a realidade tem uma vantagem sobre a propaganda: não precisa de levantar a voz. Não precisa de braços no ar. Não precisa de conferências de imprensa. A realidade limita se a existir — e a desmentir quem tenta reinventá-la.
E quando a propaganda tropeça, tropeça com estrondo.
O país não precisa de iluminados. Precisa de governo. E governo não se faz com coreografias, viagens simbólicas, atrelados peregrinos, montes misteriosos, maratonas digitais ou anúncios épicos sobre obrigações básicas.
Eu continuo a tentar explicar. Mas começo a achar que o país já percebeu tudo.
Joaquim Plácido
