Opinião
O que seria do mundo sem as diversas associações que se mobilizam a cada festa, a cada evento, a cada festividade marcada no calendário? Sem todos os que dispensam um pouco de si, da sua disponibilidade, do seu tempo para trabalhar por algo maior? Escrevo-vos este texto depois de um fim-de-semana intenso no Mercado à Moda Antiga, em Oliveira de Azeméis. Escrevo-o com um sentimento de dever cumprido mas com um ainda maior de orgulho e admiração. Foi um trabalho considerável de quinta-feira a domingo. No meu caso, na Associação de Pais da Santa Casa da Misericórdia aqui de Oliveira de Azeméis. Pais? Sobejamente injusto ter um nome tão redutor quando o trabalho arrasta avós, primos, tios, madrinhas, sobrinhos.
Em fins-de-semana tão preenchidos, e que levam tanto de nós, torna-se impossível não admirar quem se deita tarde e a más horas, mesmo com trabalho no dia seguinte, para não deixar nada por fazer. Admirar quem fica em casa, sobrecarregado com os afazeres familiares para que nada fique por fazer. Admirar os que atendem o telefone e que arranjam soluções. Admirar os que dão um pouco de casa e carro, a custo pessoal, para que não falte nada. Admirar quem se desenrasca e é capaz de rir a cada imprevisto. Admirar quem se compromete a aparecer e aparece mesmo, sabendo que a carteira vai ficar muito mais leve mas que haverá quem faça valer a pena. Admirar quem chega apenas quando consegue, os que sorriem logo de manhã depois do sono que chegou tardio e os que aceitam ficar até mais tarde sabendo que o corpo, eventualmente, vai acabar por cobrar.
Porque ajudar é simplesmente uma coisa que se faz. Sendo-vos sincero, de mim, haverá sempre uma pequena grande vontade de contribuir para o mundo que me rodeia. Tenho toda a convicção de que a escola na educação da minha filha e de todas as crianças que frequentam aquela instituição. Mas… e se pudermos ir mais longe? E se pudermos, como pais, enriquecer a oferta da escola e oferecer os mais variados estímulos às crianças que ali crescem diariamente? Afinal, a qualidade do desenvolvimento integral de uma criança é fruto da interação que esta mantém com o meio que a rodeia e com a multiplicidade de pessoas com quem convive diariamente. E também sabemos que os primeiros anos de vida são essenciais para uma formação e um crescimento saudável das crianças. Então, porque não arranjar forma de proporcionar o maior número de experiências aos mais pequenos?
Tenho imensa sorte em poder proporcionar inúmeras e marcantes experiências às minhas filhas. Porque temos tempo – e dinheiro – para isso. Mas nem todas as crianças têm a sorte de viver numa família com tempo, dinheiro e interesse pelo seu saudável desenvolvimento. Aqui em casa gostamos de usar uma expressão para caracterizar este fenómeno: “há crianças que nascem no -500”. Crianças que mal passam tempo com os pais, que quase nascem de telemóvel na mão e que conhecem o mundo através de um ecrã. Crianças que mal aprendem a viver consigo mesmas, quanto mais com o mundo que as rodeia.
É por isso que dedico parte de mim à Associação de Pais. Para ter fundos para levar atividades à escola e proporcionar momentos que, de outra forma, algumas crianças não teriam. Para que, juntas, possam ver um teatro, ouvir uma música ou uma história, plantar uma árvore. Para que se possam, acima de tudo, divertir. Podemos melhorar enquanto sociedade se o trabalho começar a ser feito pela raiz, através da educação dos mais pequenos. Muni-los de capital social e cultural. Educação, educação, educação. Experiências. Estímulos. Mundo.
Ajudar é simplesmente uma coisa que se faz. E ainda bem que ainda há associações que fazem mover o mundo.
Antes de terminar, partilho um breve trecho do livro “Como educar um Viking”. “Um colega estrangeiro descobriu isto da pior maneira quando tentou dar dinheiro, fazendo um generoso donativo ao clube desportivo do filho, e se deparou com o problema da mentalidade comunitária: ‘Mal recebi um obrigado’, disse-me, confuso. Outro pai chamou-o à parte e disse-lhe: ‘Eles não querem o teu dinheiro – querem o teu tempo’. Porque o tempo é mais precioso.”
Nuno Margarido
Mestre em Comunicação
