Desporto
O futebol é a principal modalidade desportiva em Portugal (e na Europa), quer no número de praticantes, quer na atenção mediática que desperta em milhões de portugueses e, no final da época desportiva, exacerbam-se as emoções e, inevitavelmente, sobrevem a irracionalidade. Mas o mais grave é que a opinião pública é moldada pelos opinion makers, que influenciam e moldam as atitudes do público, de muitos outros que os ouvem quase diariamente, devido ao seu pretenso conhecimento técnico e/ou aos lugares que ocupam na hierarquia desportiva.
Assim se molda a opinião pública, a ponto de tais “opiniões” se generalizarem até se tornarem dominantes, direi mesmo que quase exclusivas, transformando-se em “cultura da modalidade”, entendida como “o conjunto de valores, opiniões e comportamentos específicos duma modalidade desportiva”. Vejamos, então, a cultura do Futebol e doutras modalidades e façamos as comparações.
A cultura do Futebol
O erro da arbitragem é a explicação escolhida por dirigentes, treinadores e comentadores para justificarem os seus insucessos e os inêxitos das suas equipas. Utilizam normalmente frases feitas, vocabulário previsível tipo cassete, recorrendo a frases inflamadas e emocionais e lançando sobre os árbitros uma suspeição permanente.
Manuel Brito, meu colega e amigo e antigo Diretor Geral dos Desportos deu-se ao trabalho de gravar várias entrevistas de agentes desportivos e de proceder à análise do seu conteúdo, encontrando expressões muitas vezes repetidas, tais como: “fomos claramente prejudicados”, “houve dualidade de critérios”, “assim é impossível competir”, “o árbitro veio aqui com uma missão”, “não nos deixaram ganhar”, “isto não é só coincidência”. Refere, também, outras fórmulas que procuram conferir maior rigor técnico, como “o critério não foi uniforme”, “em lances iguais, decidiu de forma diferente”, “o VAR só funciona para alguns”, “perdemos por culpa do árbitro”, “houve fatores externos que nos condicionaram”.
De facto, não se faz a análise técnica dos lances, mas apenas se critica de forma genérica, lançando suspeições, a ponto de o espectador ser levado a olhar o jogo com desconfiança, procurando com o seu “olhar” confirmar as narrativas dos entendidos.
Também os inúmeros painéis de discussão que todas as televisões transmitem quase diariamente, com comentadores “encartados” e quase sempre ligados a clubes, banalizam a crítica, considerando tudo erro, escandaloso e suspeito.
É assim o nosso futebol (com letra minúscula): em vez da análise profunda das questões estruturais, das equipas e dos jogadores (as opções táticas, a gestão física e emocional dos jogadores, as causas dos erros individuais e coletivos) e as opções estratégicas dos dirigentes, discutem-se lances isolados e culpabilizam-se os decisores, quase sempre os árbitros. Para a opinião pública, expressa na consulta das redes sociais, não há um único árbitro de Futebol honesto, sendo todos corruptos e estando ao serviço ora dum, ora doutro, ora dum terceiro clube português (apenas os 3 grandes contam, sendo os restantes clubes meros figurantes).
Como exemplo de questões estruturantes dirigidas a um dirigente e a um treinador, deixo três: por que razão o Benfica investiu 140 milhões de euros em reforços (novos jogadores contratados), com os resultados que estão à vista? Por que razão José Mourinho considerou o Benfica uma excelente equipa (quando eliminou o Fenerbace na última pré-eliminatória da Liga dos Campeões), vindo a dizer o contrário, poucos meses depois? Por que joga o Benfica habitualmente com 10 jogadores estrangeiros, tendo uma excelente escola de formação? Questões destas, analisadas por quem sabe, poderiam levar a interessantes discussões.
Importa, por isso, contrariar esta tendência: o erro de arbitragem existe e existirá sempre e “deve ser analisado no seu contexto, com serenidade e proporcionalidade (…), porque o Futebol só terá a ganhar se se falar mais no jogo e menos nos árbitros e na suspeição”. E, já agora, os restantes intervenientes devem assumir os seus erros, sejam eles de natureza estratégica e financeira, técnico-tática ou, simplesmente, erro de jogo. No Futebol, todos erram, dirigentes, treinadores, jogadores, árbitros e, até, os espetadores.
A cultura do Basquetebol
O Basquetebol funcionará apenas como exemplo representativo das outras modalidades porque, na prática e salvo raras exceções, o padrão é comum.
No Basquetebol, aconteceram muito recentemente as finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga, o primeiro entre o Sporting e o Porto e o segundo entre o Sporting e o Benfica. Ambos os jogos foram muito disputados e equilibrados, com alternâncias do marcador, tendo o Sporting vencido ambos os jogos por 2 pontos de diferença.
No final, nas declarações dos treinadores vencidos Fernando Sá e Norberto Alves, mesmo debaixo de um estado de emoção próprio do final de jogos, só vieram palavras de análise do jogo, nenhum se referindo a erros de arbitragem e uma imagem de fair play e de desportivismo que são de elogiar. Isto, naturalmente, no contexto de derrotas tangenciais, que impediram títulos desportivos. O mesmo aconteceu com as declarações do treinador do Sporting, Luís Magalhães, que também soube assumir a atitude de digno vencedor. E todos os atletas que prestaram declarações, fizeram-no corretamente, sem recriminações de qualquer espécie.
Conclusões
Não tendo seguido uma metodologia de análise de conteúdo tão rigorosa como Manuel Brito, poderemos dizer que há efetivamente formas diferentes de assumir os resultados desportivos. E que, havendo exceções, existem formas padronizadas, que se transformam em cultura de uma modalidade.
E a cultura do Futebol é claramente irracional, inadequada e injusta, diferente de todas as outras modalidades desportivas. Deveremos ter, para com ela, um elevado sentido crítico e isto perante a “mão branda” da justiça desportiva da Federação e da Liga de Clubes.
Paulo Branco
Nota: como documentação consultada, o texto de Manuel Brito, “Sempre os erros de arbitragem…”, publicado no seu Facebook
