Editorial
A discussão sobre a relevância dos jornais em papel, num mundo cada vez mais dominado pelo online, não é nova. Mas continua atual. Com o surgimento das plataformas digitais – que continuam a multiplicar-se –, foram muitos os que vaticinaram o fim das notícias dadas em papel de jornal. A verdade é que, mesmo com dificuldades, os jornais em papel ainda existem. Ainda nos mantemos aqui. Porquê?
Um dos motivos, a meu ver óbvio, é que o mundo digital ainda não chega a toda a gente. Falo, naturalmente, de pessoas mais velhas, que não utilizam a internet. Mas não é só isso.
Mesmo para quem vive os seus dias ligado ao digital, há algo que o papel continua a oferecer e que um ecrã dificilmente possibilita: ler com tempo. Só ao ler em papel é que conseguimos não ter interrupções constantes e folhear sem distrações. Num ecrã, nunca existe apenas e só a notícia que estamos a ler. Há notificações constantes a chegar, seja de mensagens ou de e-mails, por exemplo. Além disso, a informação é imensa – quase infinita – e difusa. No papel, está toda compilada.
Depois, existe a dimensão local, que se aplica num jornal como o Eco de Vagos. Neste tipo de publicações, a informação não é apenas dada: fica registada. As mudanças no nosso território, as novidades e os problemas de cada época são impressos em páginas que dificilmente se apagam. E, assim, permanecem no tempo, como memória coletiva local.
Num tempo em que tudo é rápido e descartável, o papel continua a ser um lugar de longevidade. Ainda que exista uma máxima que diz que “o que vai parar à internet fica para sempre na internet”, sabemos bem, hoje em dia, que a realidade não é essa. A título de exemplo, são cada vez mais os casos em que meios de comunicação veem os seus acervos digitais serem atacados, ficando sem os conteúdos – às vezes, recuperáveis, outras vezes, para sempre. E lá se vão as histórias. Perde-se a memória. Talvez seja precisamente por isso que ainda nos mantemos aqui.
Salomé Filipe
Diretora do Jornal
