OPINIÃO

“A Política Externa ao Acaso: O Mundo Segundo Donald Trump”

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Há políticos que têm uma linha de pensamento. Outros têm várias. E depois há Donald Trump, que aparentemente funciona em modo shuffle, uma espécie de Spotify gratuito onde cada frase sai sem ligação à anterior, mas sempre com a confiança inabalável de quem acredita ter acabado de produzir uma epifania.
Num momento, fala de “libertar” ou “tomar” países como se estivesse a escolher ingredientes para uma pizza — “hoje vai uma Cuba com extra de soberania alheia”. No seguinte, descobre o Médio Oriente em directo, como quem tropeça num mapa pela primeira vez e conclui, surpreendido, que afinal as pessoas vivem onde nasceram… e que, se aguentam bombardeamentos, é porque talvez não seja assim tão desconfortável. Uma espécie de turismo geopolítico, mas sem a parte do conhecimento.
O mais fascinante nem é a contradição — essa já se tornou parte do folclore. É a ausência absoluta de filtro entre pensamento e discurso. Como se o cérebro fosse um acessório opcional e a boca estivesse em piloto automático, alimentada por uma mistura de ego inflaccionado e ignorância casual. Trump não pensa antes de falar; Trump fala para descobrir o que pensa — e, frequentemente, não descobre grande coisa.
Há uma leveza perturbadora na forma como aborda temas que, para o resto do mundo, são sinónimo de morte, sofrimento e destruição. Guerra, ocupação, deslocação de populações: tudo descrito com o mesmo tom com que se comenta o estado do tempo. “Parece complicado, mas as pessoas lá se habituam.” É este desprendimento que transforma o grotesco em banal e a tragédia em nota de rodapé.
Empatia? Zero. Coerência? Em parte incerta. Narcisismo? Em níveis que fariam um espelho corar de vergonha.
E depois há a política internacional — esse exercício delicado que, nas mãos de Trump, se torna uma espécie de reality show mal escrito. Abandona aliados, hostiliza-os publicamente, ameaça compromissos históricos como se fossem subscrições que se podem cancelar com um clique, e depois surpreende-se quando o mundo não reage com aplausos. A NATO passa a ser vista como um clube de quotas em atraso, a diplomacia como uma negociação imobiliária, e os conflitos armados como oportunidades para demonstrações de força sem plano A, B ou, aparentemente, qualquer vogal do alfabeto.
A ideia de que os Estados Unidos eram um farol — não perfeito, mas orientador — vai-se desvanecendo a cada declaração transformada em espetáculo. Não é apenas o conteúdo. É o riso que se segue. O aplauso. A normalização da desumanização como forma de entretenimento político. Quando a morte vira uma piada de rodapé numa conferência de imprensa, não é só quem fala que falha — é também quem ouve e decide rir.
Talvez seja isso o mais inquietante: não apenas a figura em si, mas o ecossistema que a sustenta. Milhões que assistem, encolhem os ombros e seguem em frente, como se isto fosse apenas mais um episódio de uma série absurda. Mas não é ficção. As consequências são reais, medem-se em vidas, em cidades destruídas, em equilíbrios frágeis que deixam de o ser. Num mundo à beira do caos, quase a colapsar.
Na Europa, algumas vozes, como a de Pedro Sánchez, vão tentando remar contra esta corrente de normalização do disparate. Outras preferem a posição confortável de quem baixa a cabeça e alinha, mantendo a velha tradição de seguidismo — uma espécie de diplomacia de vassalagem, onde se acena primeiro e se pensa depois, um resquício do colonialismo, desta vez mental.
Crescemos a olhar para a América como uma “cidade brilhante na colina”. Hoje, o brilho parece intermitente — não ilumina, apenas sinaliza que algo está profundamente desalinhado. E talvez a escolha mais sensata, perante este espetáculo, seja recusar o papel de figurante. Não rir, não normalizar, não aplaudir.
Porque, no fim, o problema de um líder errático não é só o caos que gera — é o hábito que cria. E há coisas às quais o mundo não se devia habituar, sobretudo quando o precipício está tão perto e qualquer passo aproxima-nos do abismo.

Paulo Pereira

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