Opinião
Chamava-se Estelina Graciett Almerinda de Lurdes Praia de Oliveira Carvalho mas para a minha tia Arminda, sua contemporânea, era Almerindinha e Almerindinha ficou para todos nós.
Pois bem, a Almerindinha morreu há um ano, depois de completar o seu centenário, e tem uma história de amor a Vagos, e à Misericórdia de Vagos, que é justo enaltecer.
A D. Estelina nasceu em Fonte de Angeão, no dia 8 de agosto de 1923, viveu alguns anos em Vagos mas depois casou, foi viver para Coimbra e mais tarde, como tantos portugueses, rumou a França e em Estrasburgo viveu até aos seus noventas. Teve uma vida de trabalho, como acontece com a generalidade dos emigrantes (e dos imigrantes), obteve também a nacionalidade francesa e tinha uma vida boa e estabilizada por lá mas havia o chamamento das raízes e regressou então ao seu apartamento com vista para o Mondego.
Passadas tantas décadas seria natural que Vagos fosse apenas uma recordação distante, apesar de ter aqui algumas pessoas conhecidas. Talvez nunca saibamos porquê mas, realmente, Vagos foi ainda e sempre a terra do seu coração. É verdade que estava no cemitério de Vagos a sua avó (Maria de Anjos Praia, Ílhavo, 1854-1938) mas poderia tê-la transladado e assim nem teria de vir cá para essas romagens de saudade. Entretanto também investiu aqui num apartamento que sempre arrendou.
Mesmo uma senhora de boa saúde e cuidados preventivos percebe que o corpo não é eterno e temos documentado que já em 1989 contactou a Câmara de Vagos para saber se esta aceitaria a doação de alguns dos seus bens, tais como livros religiosos, imagens em madeira, objetos da Vista Alegre, litografias e bordados. Era entendimento da D. Estelina que Vagos deveria ter um museu para preservar alguns ativos e, por isso, estava na disposição de contribuir com várias peças.
Temos assim a certeza que já por essa altura o seu espírito bafejava Vagos mas estava então rija e ainda com muita vida.
Infelizmente, 13 de fevereiro de 2025 fica registado como o último dia da vida terrena da D. Estelina. Por sua vontade expressa, foi sepultada em Vagos, no jazigo de família para onde vieram também as cinzas de sua mãe (Maria dos Anjos Praia de Oliveira, Ílhavo, 1897; Estrasburgo 1980).
Sem marido, filhos, nem sobrinhos, dir-se-ia que a história da família morria naquele dia e assim também a sua passagem por Vagos. Mas a Almerindinha não queria que assim fosse e assim não será. Esta é também a demonstração de que a morte não é o fim.
No dia 24 de fevereiro de 2025, uma notária de Coimbra abre o testamento cerrado (de conteúdo desconhecido) da D. Estelina e do que dele resulta é que nos tinha a todos no coração. Com grande generosidade, a D. Estelina deixa praticamente toda a herança à Santa Casa da Misericórdia de Vagos e confirma legar à Câmara Municipal de Vagos, para um futuro museu, muitas peças de porcelana, madeira, etc. Teve também o cuidado de referir que os seus livros são para a biblioteca municipal de Vagos. Particularmente tocante é ver escrito pelo seu punho: “todos os quadros pintados por mim e assinados lego-os ao Lar dos Velhinhos da Santa Casa da Misericórdia. Gostaria que adornassem as paredes desse lar”.
Estamos muito gratos à D. Estelina. O que nos deixa não é apenas simbólico mas materialmente significativo. A Santa Casa da Misericórdia de Vagos fica a dever muito a esta senhora cujo único pedido singelo é que se trate da campa e se reze por ano uma missa por ela, sua mãe e sua avó.
Estelina Graciett passa a ser um nome grande na história da Misericórdia de Vagos. Não apenas pela generosidade do seu testamento mas pela discrição e prova de carinho pelo trabalho social que se realiza.
Este testemunho não é para agradecer a quem já não pode ouvir mas é um ato de justiça necessário para quem entendeu que merecíamos que olhasse para nós. O conforto das nossas crianças, jovens, “velhinhos” e colaboradores será também devedor por muitos anos daquela que, singelamente, será sempre a nossa Almerindinha. RIP e que o seu exemplo frutifique.
Oscar Gaspar
Presidente da Mesa da AG da SCM Vagos
