NO CONCELHO

Museu do Brincar fecha por tempo indefinido

Decisão da Câmara apanhou de surpresa a própria associação Grupo Cénico Arlequim, que manteve a direção técnica do espaço mesmo depois da sua municipalização

O Museu do Brincar vai encerrar portas, temporariamente. Contudo, ainda não há previsão de quando é que irá reabrir nem em que local é que isso vai acontecer. A decisão foi tomada pelo presidente da Câmara, Rui Cruz, e anunciada na última reunião do Executivo. Em causa estão, segundo o edil, infiltrações no antigo mercado municipal – espaço onde funciona, desde 2023, o Museu do Brincar –, que podem danificar as peças que compõem o acervo museológico. Mas os membros da associação Grupo Cénico Arlequim, que se mantiveram responsáveis pela direção técnica do museu desde que o mesmo foi municipalizado, há dois anos, garantem só ter sido informados do encerramento pela comunicação social. A autarquia optou, também, por cessar o protocolo que existia entre a Câmara e a associação.
“O edifício onde o museu está instalado apresenta, atualmente, infiltrações e outros problemas estruturais que colocam em risco a adequada conservação das peças expostas e armazenadas. Estes problemas, não imputáveis ao Município, obrigarão ao encerramento do museu – não havendo ainda uma data definida para o efeito – por um período previsivelmente superior a um ano”, esclareceu a Câmara, no perfil de Facebook do museu.
Ao Eco de Vagos, Rui Cruz adiantou que a autarquia está, entretanto, a “procurar um espaço, dentro dos imóveis municipais em estado aceitável, que permita receber o Museu do Brincar, fazendo com o que o encerramento seja o menor tempo possível”. Ou seja, a Câmara quer reinstalar, provisoriamente, o museu noutro local, enquanto decorrerem as obras de reabilitação no antigo mercado. Depois, a ideia é que volte para lá.
“Foi uma surpresa”
Fundado há 13 anos por Carlos Rocha, mais conhecido por Jackas, e por Ana Barros – integrando, ambos, a associação Grupo Cénico Arlequim –, o Museu do Brincar funcionou no Palacete Visconde de Valdemouro até, em 2022, ter de lá saído, quando o edifício entrou em obras profundas de remodelação e ampliação. Um ano depois, e já após ter sido municipalizado, reabriu no antigo mercado municipal.
Através de um protocolo firmado entre o Grupo Cénico Arlequim e a Câmara de Vagos, a associação manteve-se a trabalhar no espaço, através da disponibilização de uma equipa técnica de apoio ao museu. Jackas assumiu a direção técnica e Ana Barros as funções de curadora. Mas ambos só terão sabido, agora, da decisão de encerramento, através das notícias da comunicação social, após a reunião de Câmara onde o fecho foi aprovado.
“Foi uma surpresa total e continuamos a ser surpreendidos. Tenho uma grande consideração pelo presidente [da Câmara] e não percebo este tipo de reação e comportamento. Deve haver alguma justificação, mas não me parece que haja fundamento para nada disto. Não fomos informados de nada”, lamentou Jackas. Até porque, no dia a seguir a ser tornado público o fecho, a equipa do Grupo Cénico Arlequim chegou ao Museu e deparou-se com “mudança de fechaduras, de códigos de alarme e de acesso ao e-mail” – sendo que, contam, eram Jackas e Ana Barros quem geria as reservas, estando já feitos “três mil agendamentos para 2026”. Por isso, segundo o diretor técnico, ambos puderam passar a estar no edifício apenas enquanto lá estivesse o funcionário municipal que ficou com as novas chaves do mesmo.
O espanto foi ainda maior visto que, segundou Jackas, a associação ainda não tinha reunido com o novo executivo camarário, desde as eleições, apesar de já ter enviado “dois ou três e-mails a solicitar um encontro, para falarmos sobre o Museu, que não obtiveram resposta”. Quanto a eventuais desentendimentos com a autarquia, o diretor técnico alega que os mesmos não existem e recorda que Rui Cruz – que regressou este ano à liderança da Câmara, às funções que exerceu entre 2001 e 2013 – foi o responsável, na altura, pela instalação do Museu do Brincar em Vagos.
Fundos comunitários
Ao Eco de Vagos, Rui Cruz sublinhou que “não faz sentido manter em vigor o protocolo” com a associação, “até porque os termos do mesmo também não foram sendo cumpridos integralmente”. Quanto a uma nova colaboração entre o Grupo Cénico e a Autarquia, no futuro, “é uma questão que depende de ambas as partes”. O edil assumiu, contudo, que, no imediato, o município não dispõe de pessoal técnico especializado para assumir uma reabertura do museu.
Em relação à reabilitação do antigo mercado para albergar definitivamente o museu, Jackas, por seu turno, tem dúvidas quanto à viabilidade dessa hipótese. “O Palacete Visconde de Valdemouro está a ser restaurado e havia uma zona definida para o museu. E a obra tem fundos comunitários, cuja argumentação e fundamentação é a reinstalação do museu. Como tal, não sei se é possível alterar a utilização”, questionou o diretor técnico do Museu do Brincar. Ao mesmo tempo, Jackas também duvida da existência de um espaço municipal que possa acolher, temporariamente, o projeto. “Quanto deixámos o palacete e se punha a hipótese de guardar o equipamento e o acervo, antes de irmos para o mercado, não nos apareceu nenhuma solução, dentro dos edifícios da Câmara”, recordou.
Inventário do acervo
De recordar que, quando o museu foi municipalizado, a Câmara de Vagos pagou ao Grupo Cénico 265 mil euros, para adquirir 12 500 peças do espólio, que ainda está a ser inventariado – sendo intenção no novo executivo, depois, mandar avaliá-lo. “Como é óbvio, isto devia ter sido feito”, alertou Rui Cruz, acrescentando que o trabalho deverá estar concluído até ao final de março do próximo ano. “Posteriormente, será contratada uma entidade externa para proceder à avaliação do inventário das peças e da respetiva coleção, reforçando a transparência e o rigor na gestão do património”, frisou a Câmara.
“A venda foi de 12 500 peças, mas nós assumimos ao município, com o antigo presidente, que o que excedesse esse número nós ofereceríamos à Câmara e ao Museu. E, neste momento, já estão inventariadas mais de 15 600 peças e ainda estão muitas por registar”, concluiu Jackas.
S.F.

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