Começamos este texto com o desejo de que todos tenham passado uma feliz Páscoa e, aproveitando esta celebração, vamos falar um pouco sobre o impacto das festividades na pessoa com demência. As festividades reúnem várias dificuldades ao mesmo tempo: mais visitas do que o habitual, alterações de rotina, nomeadamente refeições fora de horas; mesas grandes, conversas cruzadas, crianças a correr, cheiros intensos, televisão ligada, pessoas a entrar e sair de casa… Há, por isso, alguns aspetos a ter em conta, nomeadamente a comida, a ausência de um papel sentida pela pessoa com demência e a dimensão religiosa.
A pessoa com demência pode querer comer muito, nem sempre por gula, mas porque não se lembra que já comeu e porque a sensação de saciedade já não aparece como antes. Em consequência, aparece a frustração/sofrimento de ser impedido de comer (mais).
Muitas pessoas com demência eram quem organizava o dia da festa. “Hoje” chegam à festa que outra pessoa preparou, sentam-se onde alguém as quer sentar, esperam que os outros decidam. Isto pode causar desorientação de identidade e a sensação de ter ficado de fora daquilo que sempre “foi seu”, mesmo que não o verbalizem.
Há pessoas com demência que já não sabem o nome dos seus filhos, mas ainda se lembram da letra de um cântico religioso ou oração aprendida na infância. A memória emocional e ritual é uma das últimas a ficar comprometida e a força dela é extraordinária.
De modo a tornar mais leve as festividades, tenha em atenção que o limiar de sobrecarga na demência é mais baixo do que parece e ultrapassa-se antes de haver sinais visíveis: nesses dias tenha em conta o número de pessoas, o barulho e horas. A pessoa com demência não perceciona a sua realidade da mesma forma que alguém sem demência: tenha atenção à exposição à comida e às dosagens. Pode haver necessidade de relembrar da doença, que o seu familiar pode não reconhecer pelo nome as pessoas, pode fazer a mesma pergunta várias vezes ou contar algo que lhe aconteceu repetidamente e pode não saber o ano em que estamos. Todo o ser humano se move por propósitos e a demência não apaga isso: envolva o seu familiar na preparação da festa. O ritual religioso tem uma capacidade de ativar memória afetiva que poucas outras coisas têm: tenha em conta que pode ter de fazer alguns ajustes, por exemplo, numa missa ficar próximo da saída, ir a uma missa menos concorrida ou usar objetos significativos (terço da mãe).
Mais do que as estratégias dadas, saiba reconhecer quando o seu familiar chegou ao limite. Observe se ele fica mais calado de repente, se fica com o olhar perdido, se quer ir embora, se insiste em levantar-se, se fica mais agitado (principalmente ao final do dia). Quando acontece, não insistir nem corrigir, baixar o ruído, sair da mesa, ir para uma divisão mais calma, oferecer água, retomar qualquer coisa familiar: uma música, uma tarefa simples, uma conversa sobre algo que a pessoa entenda e goste.
Assim, desejamos que todos consigam usufruir de cada festividade, seja o cuidador, seja a pessoa com demência.
Equipa Projeto Memorizar
