Cantinho de João Ferreira
Era o último dia de fevereiro quando descobri da morte do meu caro amigo Clemente Gonçalves Mouro. Natural de Vagos, nascido na rua das “Ramolhas”, que hoje é a rua de Santo Isidro. Era eu morador nessa mesma rua já com sete anos de vida, vizinho da casa que viu nascer este tão bom vaguense. Era filho de uma das melhores famílias de Vagos, ambos os pais eram Mouro sendo que a mãe era Maria dos Anjos. Família muito ligada à vida campestre, viu a mãe senhora Maria dos Anjos morrer com perto de cem anos. À data, convidaram-me como diretor de Eco de Vagos para uma reunião familiar, da qual fiz notícia e com grande “aparato”. Irmão desta senhora Maria dos Anjos Gonçalves Mouro, era o senhor Mário da Rocha, melhor conhecido por Mário “Bechina”, que ganhou a vida na Venezuela.
Então, o vosso humilde articulista, João dos Santos Ferreira, ao chegar a Vagos com quatro anos de idade (faz hoje perto de noventa anos), era já batizado. Assim não o era, o meu irmão Manuel Armando Ferreira, dois anos mais novo que eu. Para fazer batismo, são necessários como bem sabemos, padrinho e madrinha: quis o fado que o meu irmão tivesse como padrinhos religiosos, os irmãos senhora Maria dos Anjos Mouro e Mário da Rocha “Bechina”. O evento religioso deu-se na antiga igreja, que caso o leitor não saiba, é exatamente no mesmo sítio da nova Igreja Matriz, cujo empreiteiro foi o senhor João de Almeida, conhecido por João “Farta” (o edifício simplesmente foi rasado e construído novamente). Numa nota à parte, este empreiteiro, João “Farta”, sendo de Vagos, figurou no filme de Manoel de Oliveira, “A Caça”.
Sobre a pessoa que motiva este artigo, senhor Clemente Gonçalves Mouro, tenho a apontar alguns factos da vida do mesmo: antes de partir para os Estados Unidos da América, aprendeu pintura de porcelana na fábrica da Vistalegre bem como numa escola de Belas Artes no Porto. Tenho até um conto de viagem com este caro amigo: partilhámos comboio do Porto pra Aveiro, quando eu trabalhava na Cidade-Invicta.
Já no país norte-americano trabalhou em diversas artes, trazendo de volta, algum mais do que levou (inclusive pelo que sei uma reforma estrangeira). Cá pela terra Vaguense, entrou no teatro “Frei Luís de Sousa”, sendo que sem fazer pouco, sabia eu melhor o seu texto que ele próprio. Não que me gabe, mas quando nos encontrávamos nessa altura, ele ria-se do facto, dizendo:
-É pá… sabes a minha parte melhor que eu mesmo.
Cheguei a visitá-lo em várias ocasiões no Largo do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Vagos e, mesmo sendo ele uma “meia-dúzia” de anos mais novo que eu, torna-se em mais um amigo, do qual despeço, e assim se mantém cada vez mais séria a minha evocação: “Nas minhas histórias, só está vivo o narrador”. Até mais ver amigo, sentimentos de pesar à família que deixas.
A todos um bem-haja e vidas compridas.

João dos Santos Ferreira
