OPINIÃO

Já dizia o Zeca Afonso “Venham mais cinco!”

Cantinho de João Ferreira

Escrevendo em fins de janeiro…
Adivinho já os dez e onze de fevereiro, quando eu, João Ferreira, e o
meu irmão Manuel Armando, faremos nos respetivos dias, noventa e
quatro e noventa e dois anos. Dois anos menos um dia nos separam desde
a nascença do segundo em vale d’Ílhavo em mil novecentos e trinta e
quatro, e assim se passaram noventa e quatro fevereiros, noventa e
dois ao lado do meu irmão Manuel Armando, já que o António Carlos “Faz
Tosse”, nascido em mil novecentos e trinta e oito morreu algumas
décadas mais cedo, com número de aniversários que simboliza o Zodíaco
de Caranguejo: sessenta e nove.
Sobre o meu irmão “Faz Tosse”, tenho a dizer que teve uma vida bem
aventurada: antes dos dez anos de idade já perfazia uma a soma
ambiciosa de “quase mortes”: debaixo de carros de bois, caído a poços,
bebendo remédio de matar formigas (este último dizendo que era doce… e
só lhe sobrevivendo devido ao “Vomitório” administrado pelo Doutor
João Machado Alves).
Ainda sobre o meu irmão mais novo, zangamo-nos devido à mãe que
partilhámos; a casamentos de família aos quais nem fomos convidados um
pelo outro; a partilhas; e a tanto mais…, no entanto guardo-lhe memória
de bom irmão, grande amigo e um aventureiro que chegou a ir a Limoges
na França (numa soberba conta de mais de um milhar de quilómetros,
percorrida na íntegra numa motorizada marca Zündapp de cinquenta de
cilindrada. Na volta à terra natal deve ter quebrado a barreira dos
três milhões de metros percorridos). Tivemos, todos três, uma irmã que
jaz no cemitério de Vagos, desde os três anos de idade (mil novecentos
e trinta e nove, finada ainda bebé, e um ano depois de nascer o
António Carlos).
Sobre a nossa Mãe, Rosa Ferreira, tenho contado estórias de como foi
presa por partir o braço a uma mulher que a insultou, levando com ela
para a cadeia o recém-nascido de dois anos e meu irmão: Manuel
Armando… deste ponto, nasce um caso peculiar de sortes e fados que vos
partilho também: estava eu a espreitar o cinema de Vagos, que à data,
era no antigo e ardido quartel dos bombeiros, quando me fecharam as
portas da sala de cinema. Ora, sem conseguir ver o filme “Trevo de
Quatro Folha” que lá rodava, voltei à minha casa na rua do Porto
Gonçalo, mesmo a tempo de ver o meu avô Constantino Ferreira, que com
a sua paralisia devido a trombose, a pegar lume a si mesmo, quando
apenas queria encher um isqueiro para fumar cigarro. Ressalvo
novamente as palavras do meu querido avô que viria a finar não aí, mas
setes mais tarde:

“Ó Joãozinho, ajuda-me a tirar a boina e a jaqueta, senão morro queimado!”.
De quatro anos feitos, despi-lhe as fardas que ardiam e apaguei-lhes o
fogo ouvindo: – “Ó meu anjinho, tão jovem e já salvaste a vida ao teu
avô…”.
Assim reitero o mote “Venham mais cinco”: Gerações, Décadas, Anos, e
estes últimos, conto cá estar mais alguns. Quem sabe passar os cem, e
“dar a volta à máquina”, como se costuma dizer nos jogos de setas.
É com o maior agrado que vos partilho esta celebração de noventa e
quatro aniversários, escrita algumas semanas antes, não vá o diabo
tecê-las… não que conte finar, por outra, já falho o artigo de
fevereiro. Até à data, quase quarenta anos de trabalho neste jornal,
hoje pertença da Santa Casa de Vagos, oito anos se contam mais a
escrever após passagem de testemunho: quase cinquenta ao todo.
-E “Venham mais cinco!”, já assim cantava o Zeca, que como a maioria
de nós era aveirense também.
Um bem-haja!

João dos Santos Ferreira

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