EFEMÉRIDE
CASAPIANO. Corria o ano de 1973, encontrava-me na Costa Ocidental de África e estava maravilhado em tudo o que via – tudo era belo e grande. «Maningue-maningue», como diziam os indígenas – quem dorme uma noite nunca mais a esquece! Estávamos na quinzena de dezembro e o Natal aproximava-se rapidamente. Aquele bacalhau com batatas, os doces onde pontificavam as filhoses e as rabanadas, toda a família junta, a ida à missa do Galo, enfim era o Céu e descer à Terra e a dizer-nos que sem Amor nada existe.
Naquela tarde, ao chegar ao Bar de Lisboa avistei no lugar do costume, o Ferrugem aquele negro simpático e educado que me costumava pedir algumas moedas para a branquinha (cachaça). Levantou-se lentamente com o auxílio da parede da casa onde se encontrava. Tratava-me por “sotor”, embora eu lhe dissesse que era engenheiro. «Sim patrão» resmungava o Ferrugem para logo me voltar a tratar por “sotor”. Era um caso perdido aquele negro, muitas vezes pedia-me uma duzenta (20$00) no auge do atrevimento, tendo em conta que uma grade de cerveja Cuca custava uma quinhenta (50$00). Não achas que é muito? – perguntava eu. Amanhã já não pedir – respondia ele muito sério.
És casado? perguntei-lhe um dia. Sim, respondeu ele, com a Maria Sábado. E filhos? Sete grandes e um pequeno, mas pequeno não tem nome. Com se chama o “sotor”? perguntou curioso. Carlos, respondi eu. Bem, disse o Ferrugem em tom de sábio – o filhote vai ter nome de Carlos Sábado Ferrugem. Ri-me porque pensei ser tudo uma brincadeira. Naquela tarde o Ferrugem estava triste, o filhote estava muito doente. Perguntei-lhe porque não o levas ao hospital? Sábado levar ele no Cuche-Cuche (curandeiro), disse resignado. Ó homem olha que ele pode morrer, atalhei alarmado. No hospital pode morrer também, respondeu ele filosoficamente…
Faltavam poucos dias para o Natal e a Associação Comercial organizava a Ceia do Natal, como era a tradição. Nessa noite a colónia branca reunia-se no amplo salão, tendo como fundo uma enorme árvore de Natal – bebia-se, recontavam-se histórias de outros natais, alguns deles passados no sertão africano. A miudagem teria de trazer de casa um par de sapatos, colocá-lo no andar superior para um dos empregados disfarçado de Pai Natal lhes iria pôr uns brinquedos. À saída lembrei-me de ir até à Tabanca onde morava o Ferrugem, e a Sábado mais a filharada. Quando entrei na palhota reparei que com o casal apenas estava o doente. Os outros foram comer nas custas dos titios e titias. A mãe embalava-o cantando-lhe uma canção de Natal, aprendida nos tempos idos em casa dos fazendeiros brancos ou gerentes comerciais, a quem lhe dizia – «Dorme filhote para o Pai Natal poder bater na porta e trazer os brinquedos lindos».
CARLOS CAZAUX. Nasceu em junho de 1939, o nome de Cazaux foi herdado pelo Avô, que era francês e veio trabalhar para a Fábrica da Vista Alegre em 1898 como professor de desenho e pintura. A veia literária de Carlos Cazaux fez publicar três livros: Máscara Africana, Procura dos Dias Felizes e Tempo de Calar. Este último, graças à nossa amizade ofereceu o livro como autor.
Eduardo Jaques
