Opinião
Desde 2016, Portugal já gastou dezenas de milhões de euros com a Web Summit — só a Câmara de Lisboa transferiu mais de 38,7 milhões de euros desde 2019, e o Estado terá investido mais de 20 milhões nas primeiras edições. Este evento no que respeita a custo benefício tem um impacto económico estimado. O governo estima que cada edição da Web Summit gera cerca de 200 milhões de euros de impacto económico em Lisboa e Portugal, sobretudo em hotelaria, restauração, transportes e turismo. Desde 2016, o número de startups em Portugal aumentou de 1.000 para 4.700, em parte impulsionado pela visibilidade do evento. O relatório oficial do Gabinete de Estratégia e Estudos (Ministério da Economia) prevê efeitos multiplicadores até 2028. Mas do nada saiu a peregrina ideia de atribuir um tutor de IA a cada aluno, é uma ideia ambiciosa e simbólica da viragem digital na educação, mas, a mim, exige-me uma análise crítica sobre equidade, pedagogia e soberania tecnológica e impactos cognitivos e emocionais. O que queremos para Portugal, uma educação personalizada ou padronizada?
O ministro da Reforma do Estado anunciou a intenção de “dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial que ouve, orienta e inspira a aprendizagem”, através do modelo de linguagem português cujo nome será em memória de “Amália”. A promessa é sedutora: um assistente digital que acompanha o ritmo de cada aluno, responde às suas dúvidas e reforça a autonomia no estudo. Mas será que a IA pode substituir — ou complementar — o papel humano do professor, mentor e educador?
A personalização algoritmia corre o risco de se tornar padronização invisível. Modelos de IA, por mais sofisticados que sejam, operam com base em padrões estatísticos e não em intuições pedagógicas. A aprendizagem não é apenas transmissão de conteúdos, mas também construção de sentido, diálogo crítico e desenvolvimento emocional — dimensões que a IA ainda não domina. Outra preocupação é a equidade digital e risco de exclusão, a proposta levanta também questões de justiça social. Ter um tutor de IA pressupõe acesso a dispositivos, conectividade estável e literacia digital. Num país onde persistem desigualdades no acesso à tecnologia, como se pode garantir que este projeto não aprofunda o fosso entre alunos de meios favorecidos e desfavorecidos?
Além disso, quem controla os dados gerados por estas interações? A promessa de um “Estado mais inteligente e responsivo” deve ser acompanhada por garantias de privacidade, transparência e soberania digital. A educação não pode ser campo de experiência tecnológica sem escrutínio democrático. E o papel dos professores e da escola pública. A introdução de tutores de IA não deve obscurecer o papel insubstituível dos professores. A IA pode ser uma ferramenta útil — mas não um substituto. O risco é que, sob o pretexto de inovação, se promova uma desvalorização da profissão docente e uma automatização da relação pedagógica. A escola pública deve ser o espaço onde se aprende a pensar, a questionar e a conviver. A IA pode apoiar, mas não pode ensinar valores, estimular o pensamento crítico ou cultivar empatia. O verdadeiro tutor continua a ser humano. Esta proposta de inovação deve ser com responsabilidade. O político responsável pela Reforma do Estado quer os “louros “de tornar Portugal num “Hub tecnológico global “. É uma ambição legítima, principalmente por até agora não ter apresentado nada de significativo na Reforma do Estado. Mas a inovação educativa exige mais do que tecnologia: exige visão pedagógica, inclusão social e ética pública. O tutor de IA pode ser uma oportunidade — se for pensado como complemento, e não como substituto. E se for guiado por valores humanos, não apenas por algoritmos. Se este projeto for implementado com responsabilidade, poderá marcar uma nova era na educação. Mas se for guiado apenas por reforma política e entusiasmo tecnológico, corre o risco de transformar a escola num laboratório de dados e os alunos em utilizadores passivos. A escolha é nossa.
Joaquim Plácido
