OPINIÃO

Coisas antigas extraordinárias de quando tinha dez anos

Cantinho João Ferreira

“Numa aldeia antiga e alentejana mas que horror… / Uma mãe matou três filhos de uma vez / Amantizou-se com um carrasco sem amor / Era viúva ainda não havia um mês. // O amante prometeu-lhe casamento / Mas tu tens que abandonar os teus miúdos / Não estou para perder todo o meu tempo / Com filhos doutro e gastar os meus escudos. // Ela com a faca da cozinha / Da criança mais velhinha se abeirou / Sete facadas deu na criancinha / e as outras duas com a mesma faca matou.” Serve o poema de exemplo de como se faziam versos antigamente, estes eram vendidos de mão em mão pela vila a meio escudo cada. “Mais um crime para o jornal / Da filha de um general sobrinha de um capitão / Olha esta infelicidade / com quinze anos de idade / sua honra deu a um cão.” Seria outro. Havia também o casal que apareceu na terra de Vagos e que cantava assim: “Ó caldibroa / Deus abençoa os nossos lares / E é uma alegria / Se em cada dia não nos faltares // E é oração Quase canção / Que o povo entoa / Deus mata a fome À pobreza / deixando na mesa o caldibroa”, para os que não sabem, “caldibroa” é sopa e pão ou seja: caldo e broa.
Dois anos mais tarde, fui trabalhar para a cerâmica Vaguense, por que ao pedir esmola, o gerente Sr. Aníbal Cunha ofereceu-me trabalho em vez, dizendo:

– Talvez já sejas capaz de levar três telhas.
A princípios só consegui com duas, mas passado duas semanas ele tornou:

– Leva três… mesmo que partas umas dez, eu não te ralho.”
E logo de caminho continuei a trabalhar mas com um ritmo melhor, levando uma telha em cada mão e uma sobre a rodilha da cabeça.
Trabalhei na fabrica da telha conhecida por “Vinte e Sete” cerca de dez anos, e houve alguns episódios dignos de lembrar, faço exemplo de quando quase morri e fui salvo pelo meu amigo Sr. João Mourão, passo a explicar: ia a passar pela máquina misturadora quando a correia me prendeu pela roupa e me levou por ali acima, só pensava: “Já vou ficar transformado em barro!”, tudo em volta de mim gritava “Olha que ele morre! Olha que ele morre!”, mas o Sr. João Mourão à data um jovem como eu, agarrou num pau com que agitou a correia e eu caí no chão, “vivinho da silva”.
Esse senhor que mais tarde foi para a França já finou, mas antes disso, aqui há tempos perguntei-lhe se se lembrava de quando me salvou a vida e ele demorou mas lá me disse:

– Ora essa… foi na cerâmica.
Muito mais haveria para debater mas o espaço escasseia… é com agrado que mais uma vez me despeço dos meus caros leitores, um bem haja e tudo de bom.

João dos Santos Ferreira

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