OPINIÃO

“Mentalidade de CR7…”

Opinião
Há momentos na política portuguesa que revelam mais do que aparentam. O apelo de Luís Montenegro para que os portugueses adotem a “mentalidade de Cristiano Ronaldo” é um desses momentos. Não é apenas uma frase infeliz ou um recurso fácil ao imaginário futebolístico; é um sintoma de algo mais profundo: a crescente infantilização da política e a substituição da responsabilidade coletiva por slogans de autoajuda.
Cristiano Ronaldo é, sem dúvida, um caso extraordinário de talento, disciplina e ambição. Mas é também, e isto raramente é dito, o produto de estruturas coletivas altamente profissionais. Para chegar onde chegou, Cristiano Ronaldo precisou de equipas competentes, treinadores exigentes, planeamento rigoroso, organização tática, médicos, fisiologistas, analistas, e de um ambiente institucional que lhe permitiu florescer. Em suma, precisou de um bom governo no seu clube e na seleção. A excelência individual não existe no vazio; existe porque há uma arquitetura coletiva que a sustenta.
É precisamente isso que o discurso de Montenegro apaga. Ao transformar um caso absolutamente excecional num modelo universal, o primeiro ministro não está a inspirar o país está a deslocar responsabilidades. A mensagem implícita é clara: se Portugal não progride, a culpa é dos portugueses que não “acreditam”, não “trabalham”, não “treinam” o suficiente. É a velha moral neoliberal do mérito individual, agora embrulhada em patriotismo futebolístico.
Mas um país não é um atleta. Um país não se governa com metáforas de balneário. Um país precisa de políticas públicas, de investimento, de planeamento, de justiça territorial. Precisa de Estado.
A Gafanha da Boa Hora, Trás os Montes ou o interior do Alentejo não se salvam com mentalidade de campeão; salvam-se com decisões concretas, com recursos, com prioridades claras e com coragem política.
A retórica da superação individual serve, acima de tudo, para ocultar a ausência de estratégia coletiva. Luís Montenegro sabe que o país está cansado, desigual e desconfiado. Sabe que a austeridade regressa sob o nome de “responsabilidade”. Sabe que pedir sacrifícios é impopular. Por isso, oferece motivação em vez de explicação, emoção em vez de política. É o truque clássico: quando não se pode prometer futuro, promete-se atitude.
O problema é que esta substituição de política por coaching não é inocente. É uma forma de despolitização. Se tudo depende da “mentalidade”, então nada depende do Governo. Se o país falha, falha porque não foi “Cristiano Ronaldo” o suficiente. É uma narrativa confortável para quem governa, mas profundamente injusta para quem vive no país real, o país das assimetrias, das carências, das freguesias esquecidas.
Cristiano Ronaldo é um símbolo nacional. Mas usá-lo como substituto de pensamento político é, além de intelectualmente pobre, democraticamente perigoso. A democracia exige verdade, exige clareza, exige assumir que há problemas que não se resolvem com esforço individual, mas com escolhas coletivas. E isso implica governar … não motivar.
A “mentalidade de CR7” pode servir para marcar golos. Não serve para governar Portugal.
Joaquim Plácido

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