O mês de abril trouxe consigo as tão aguardadas férias da Páscoa para as jovens da nossa CAR. Para muitas delas, este período representa mais do que uma simples pausa nas rotinas escolares, é um tempo de descanso, de reencontro e, sempre que possível, de convívio com a família. Pequenos momentos como estes podem significar verdadeiros “pozinhos de felicidade” em vidas que, tantas vezes, foram marcadas por desafios e por ausência de proteção.
As férias são, por isso, uma oportunidade para recuperar energias, fortalecer laços e viver experiências positivas que ajudam a construir memórias e sentimentos de pertença.
Mas abril é também um mês de especial significado social. Assinala-se o Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância, um período dedicado à reflexão e à consciencialização sobre a importância de proteger crianças e jovens de qualquer forma de violência, negligência ou abuso.
Ao longo deste mês, é comum encontrarmos o laço azul em escolas, instituições, espaços públicos e nas redes sociais, recordando a todos a responsabilidade coletiva de garantir que cada criança cresça num ambiente seguro, digno e afetuoso.
Olhar com atenção para as necessidades das crianças, escutá-las e protegê-las não é apenas uma causa institucional, é um dever de toda a sociedade.
Percebemos que muitas das jovens que acolhemos trazem consigo fragilidades significativas na sua saúde mental. Nem sempre é fácil compreender se foram essas fragilidades que expuseram as dificuldades das suas famílias no saber cuidar delas, ou se foram as próprias dinâmicas familiares que, consciente ou inconscientemente, provocaram as fissuras na sua saúde mental. É conhecimento científico amplamente reconhecido que a ausência de um ambiente estimulante, securizante e protetor, capaz de estabelecer vínculos afetivos seguros, pode comprometer o desenvolvimento de uma personalidade equilibrada.
A verdade é que uma grande parte destas jovens acolhidas toma medicação, antidepressivos, estabilizadores do humor, reguladores da impulsividade ou ansiolíticos. Algumas têm também acompanhamento em consultas de especialidade. Consideramos que este acompanhamento, mais do que rotular, ou diagnosticar, dá-lhe a oportunidade de reequilibrar a sua energia interna e aliviar a tensão emocional acumulada ao longo dos anos.
Tal como qualquer motor que, em determinado momento, precisou de ir à oficina, ficarão sempre marcas e memórias desses tempos difíceis. Ainda assim, continuamos a acreditar que a grande maioria consegue ultrapassar com sucesso esses momentos críticos da sua vida.
Como em tudo na vida, no final do acolhimento, algumas, mesmo com todo o nosso esforço e com o apoio dos técnicos especializados que se envolveram nas suas vidas, poderão continuar a enfrentar dificuldades e, por vezes, perpetuar os ciclos de dor. No entanto, a grande maioria consegue reorganizar-se, assumir compromissos e construir um futuro diferente do passado que viveram.
Há ainda aquelas que se reinventam e nos fazem acreditar que, por vezes, basta um pequeno empurrão para descobrirem a sua própria luz e brilharem sozinhas.
Nós continuamos cá por todas.
Casa de Acolhimento Residencial
