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Reabilitação Desportiva: muito além da alta médica

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Quando um atleta se lesiona, a pergunta parece simples:
“Quanto tempo vai demorar a recuperar?”
Mas a ciência atual mostra que a questão certa talvez seja outra:
“Recuperar para quê — e em que condições?”
Durante muitos anos, a reabilitação desportiva foi organizada em torno de um objetivo claro: restaurar a estrutura lesionada. Se o ligamento cicatrizou, se o músculo recuperou força, se os testes clínicos são positivos — então o atleta pode voltar.
Hoje sabemos que o processo é mais complexo.

A lesão não afeta apenas o local da dor
Uma lesão não altera apenas uma articulação ou um músculo.
Altera padrões de movimento.
Modifica a perceção de segurança.
Muda a forma como o atleta reage ao risco.
O organismo adapta-se para se proteger. Essa adaptação é natural e necessária. O problema surge quando essa reorganização não é acompanhada de forma estruturada.
É por isso que dois atletas com a mesma lesão e o mesmo tempo de recuperação podem regressar com níveis de rendimento muito diferentes.

Do “curar” ao “preparar”
A reabilitação moderna deixou de ser apenas um processo de cura. Passou a ser um processo de preparação. Os modelos mais atuais defendem que uma recuperação eficaz deve integrar três dimensões:
• Biológica – cicatrização, força, estabilidade, controlo neuromuscular
• Cognitiva – tomada de decisão, perceção de risco, regulação atencional
• Contextual – exigência competitiva real, imprevisibilidade, pressão
Não basta restaurar a função em ambiente controlado. É preciso treinar o atleta para o ambiente onde vai competir.

O papel das tecnologias emergentes
É aqui que as tecnologias emergentes começam a ganhar relevância científica.
Ferramentas como a realidade virtual permitem expor o atleta a cenários de jogo simulados, reintroduzindo estímulos visuais e decisões rápidas antes do regresso pleno à competição.
Sistemas de biofeedback e neurofeedback ajudam a monitorizar respostas fisiológicas e padrões de ativação, permitindo trabalhar controlo motor e regulação sob carga.
Técnicas de estimulação cerebral não invasiva estão a ser estudadas como forma de potenciar aprendizagem motora e reorganização neural em fases específicas da reabilitação.
O que estas ferramentas têm em comum?
Permitem trabalhar aquilo que antes era invisível:
• como o atleta processa informação
• como reage à pressão
• como organiza o movimento em contexto imprevisível
Não substituem o treino tradicional. Complementam-no com maior precisão.

Então, o que é necessário para uma recuperação eficaz?
À luz da evidência científica atual, uma recuperação eficaz exige:

  1. Critérios objetivos de progressão física, baseados em função real e não apenas em tempo de calendário.
  2. Exposição gradual a contextos competitivos, reduzindo a discrepância entre treino clínico e jogo real.
  3. Integração de estratégias cognitivas, como imagética motora ou treino atencional, para otimizar adaptação neural.
  4. Monitorização individualizada, utilizando tecnologia quando possível, mas sobretudo avaliação consistente e estruturada.
  5. Decisão interdisciplinar, envolvendo profissionais da área física, técnica e psicológica.
    Sem esta integração, o risco não é apenas a recaída — é o regresso inconsistente.

O regresso não é um momento. É uma fase.
A alta médica é um marco clínico.
Mas o retorno à competição é um processo de reintegração funcional.

Filipa Pereira
Doutoranda em Ciências do Desporto, Universidade de Coimbra

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