Durante tantos anos de existência da nossa CAR, uma casa de acolhimento e de afetos, onde tantas meninas já encontraram o recomeço, nunca imaginámos vir a celebrar o fim do Ramadão, saboreando especialidades distantes como as Hunar Pitha ou os delicados Dal Bora. E, no entanto, foi precisamente neste encontro improvável que nos redescobrimos este mês de março.
O sistema português de promoção e proteção de crianças e jovens orgulha-se de ser inclusivo, e é! Acolhe sem distinção de nacionalidade, género, etnia, cor, orientação ou fé. Também na nossa casa essa diversidade sempre foi uma presença viva com meninas vindas de diferentes geografias, com línguas entrecortadas e histórias por vezes difíceis de traduzir. Ainda assim, aprendemos cedo que a linguagem essencial é a do cuidado, da escuta e do acolhimento. Acreditamos, com a serenidade de quem já viu partir muitas destas meninas, que cada uma leva consigo um pouco de todas as outras e de nós. Todos crescemos!
Até aqui, a fé surgia-nos em formas mais familiares, jovens moldadas por tradições católicas, outras indiferentes, algumas em busca, entre a catequese e o silêncio. Cada uma sempre foi livre de trilhar o seu próprio caminho espiritual e talvez por isso a chegada, em 2026, de uma jovem muçulmana tenha aberto uma porta nova, não apenas para ela, mas para todas nós.
Com ela, chegou o Ramadão e com o Ramadão um tempo diferente, dias de jejum, de oração no ritmo de uma fé vivida entre o nascer e o pôr do sol. Para nós, tudo era novidade, comer de madrugada, não tomar o pequeno almoço, vir para casa jejuar o almoço da escola, sentir-se fraca…, mas, para ela, nós fomos a casa.
No dia 18, quando o jejum terminou, a alegria iluminou-lhe o rosto. Mais do que quebrar a abstinência, desejava partilhar! Partilhar connosco o espírito vibrante do Eid, tal como é vivido no Bangladesh, terra de origem onde as ruas se enchem de vida, as famílias se reencontram, as roupas novas anunciam recomeços e os aromas da cozinha celebram a fé.
E foi assim que, entre nós, o mundo se fez mais amplo. Na nossa cozinha, os cheiros intensos de fritos e especiarias desenharam geografias novas pela casa toda. As vestes coloridas trouxeram outros olhares, e, sobretudo, o entusiasmo contagiante com que passou a tarde a cozinhar, transformou o quotidiano em celebração. Moldar os Dal Bora, pequenos bolinhos de lentilhas, pimentos, cebola e especiarias, tornou-se mais do que uma tarefa, foi um gesto de comunhão e partilha entre várias latitudes. Entre as mãos que moldavam a massa e os risos que se cruzavam, sentimos a força da identidade e a generosidade de quem partilha o que é seu.
Servidos ainda quentes, os Dal Bora, muçulmanos, abriram a nossa noite de sexta-feira de Quaresma, católica, onde, lado a lado com a dourada grelhada, o arroz e a couve-flor, se sentaram culturas diferentes, sem estranheza, apenas com respeito.
Talvez seja isto a multiculturalidade, não um conceito abstrato, mas um encontro vivido. Um verdadeiro “melting pot” de experiências, sabores e crenças que nos alarga o olhar e nos aproxima do mundo. Na simplicidade de uma mesa partilhada, bastam gestos, tempo e a coragem de acolher o outro como ele é.
Casa de Acolhimento Residencial
