Opinião
Com o passar de mais um ano, chegou a altura de mais uma Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), desta vez em Belém do Pará, no Brasil, cidade integrada na Amazónia. A cada nova edição da COP, assistimos a uma familiar mistura de sensações — o entusiasmo de podermos estar na eminência de um momento histórico, contrabalançado pela habitual inércia e desencontro de vontades no combate às alterações climáticas.
A COP deste ano teve um simbolismo reforçado por se celebrarem os 10 anos desde a adoção do Acordo de Paris (COP21) para limitar o aquecimento do planeta até ao limite de 1.5℃. E se é verdade que progressos importantes foram conseguidos desde então, é também verdade que a trajetória atual continua bem longe da desejável. A curto prazo, ou seja, até 2030, será necessário reduzir as emissões de carbono em 43% para que o limite de 1.5℃ não seja ultrapassado — não se trata de uma meta ou um mero objetivo mas um limite biofísico do planeta. Apesar da ciência ser inequívoca e nos apontar caminhos para evitar consequências catastróficas globais, em 2025 emitimos mais 10% de gases com efeito de estufa em relação ao ano do histórico Acordo de Paris. A este ritmo, o mundo acelera em direção aos 2.5ºC de aquecimento global com implicações para todos, sem exceção.
Perante o descontentamento sobre os progressos lentos e constantemente adiados, esta edição ficou marcada pela presença dos povos indígenas da Amazónia a exigirem o fim das explorações de petróleo, minerais e demais recursos que resultam na destruição deste ecossistema único e fundamental para o balanço do planeta. A representação expressiva destas comunidades é um grito de desespero e a mensagem que trazem consigo tem uma expressão universal. Põem a descoberto a desigualdade crescente das relações de poder que perpetuam injustiças ambientais e sociais, não só na Amazónia mas por todo o mundo. E apesar das importantes revindicações, as suas vozes esbarram na indiferença de uma sociedade baseada num modelo económico que apenas sobrevive pelo crescimento desenfreado a troco da infraestrutura natural que nos sustenta — os ecossistemas. Essa indiferença não é metafórica, já que assistimos a várias indústrias, sobretudo a indústria petrolífera, a relaxarem as suas metas ambientais para sustentarem os seus recordes de lucros trimestrais com a complacência do poder político. Mas não se trata apenas de indiferença quando a maior “delegação” presente nesta COP, à exceção da delegação do país anfitrião, é composta por mais de 1.600 representantes da indústria dos combustíveis fósseis. As intenções são claras — influenciar, distrair e condicionar as negociações para que acordos ambiciosos e vinculativos de redução de emissões de carbono não sejam alcançados. Se a tarefa de alcançar consensos multilaterais não é fácil, permitir a interferência direta de interesses económicos de forma tão decisiva, retira credibilidade, transparência e a possibilidade de se chegarem a acordos substanciais nas sucessivas COP. Talvez também por isso, não seja coincidência que o fim dos combustíveis fósseis não tenha sequer sido mencionado no texto do acordo final da COP30, mesmo sendo uma exigência da maioria dos países e da sociedade civil.
Apesar da crescente frustração com a falta de urgência na ação climática, a cada ano renova-se a esperança de se poderem alcançar acordos tangíveis com capacidade de responder a uma das maiores crises que a Humanidade enfrenta. O progresso que se tem conseguido, ainda que insuficiente e lento, demonstra que o combate às alterações climáticas não se trata de uma impossibilidade técnica mas de uma vontade coletiva. O multilateralismo nem sempre segue o rumo e ritmo desejados, mas foi pela capacidade de diálogo e cooperação que o Acordo de Paris foi alcançado em 2015, desviando-nos da rota desastrosa que nos levaria aos 4℃ de aquecimento global. A frustração com os avanços tímidos da COP30 é justificável mas desistir de um planeta justo e habitável não é. Para os mais vulneráveis perante os impactos das alterações climáticas, a indiferença não é uma opção. Num contexto global cada vez mais volátil, exigir progressos na resposta à crise climática através do diálogo, da transparência e da criatividade, é um ato de esperança.
As COP são um momento de reflexão coletiva onde os líderes políticos são relembrados da importância dos esforços conjuntos no combate às alterações climáticas. E por isso, é fundamental cultivar-se o interesse e participação pública na ação climática, bem como intensificar o escrutínio quotidiano aos governos e decisores políticos, tanto à escala nacional como no âmbito do poder local. O historial das COP ensina-nos que o progresso não se alcança por decreto mas pelo debate de ideias, pela denúncia do que tem que mudar, pela difusão de soluções e pelo aparecimento de movimentos que proponham novas realidades capazes de desafiar o status quo. Entre a esperança e a indiferença, saibamos escolher o caminho virtuoso.
Guilherme Castro, Doutorando na Royal Holloway Universidade de Londres e membro da Associação Charcos & Companhia
